Danilo Amorim dos Santos

Qual o impacto das informações publicadas na internet? Um estudo feito através da popular história do dinheiro.

Resumo

Quando falamos sobre a origem do dinheiro, e buscamos entender mais sobre todo seu processo evolutivo é normal que busquemos estudos baseado na economia, ou seja, como que a economia trata a origem do dinheiro. Em tempos modernos, com a ascensão da tecnologia, ela traz diversos modos de ver o mundo, estamos cingidos por ela, e com uma pequena busca na internet somos bombardeados de informações. Diante disso, buscaremos analisar o impacto que as informações colocadas na web podem causar para a formação de opinião das pessoas, para aprofundar, trataremos como elemento de estudo as informações encontradas no principal site de pesquisas atual, no que diz respeito a origem do dinheiro. Ou seja: As informações sobre a origem do dinheiro, de acordo com pesquisas populares, estão corretas, ou é apenas um senso comum?

O quão influenciador a internet poder ser?

Para cá, analisaremos a questão da influência da internet na vida das pessoas. De início é importante citar, um estudo feito pelo PISA (Programme for International Student Assessment) em 2015, onde eles identificaram que adolescentes brasileiros da faixa de 15 anos passam mais de três horas diárias navegando na internet no período fora da escola. Vemos um estudo feito há três anos, que já continha um número notável, com o avanço da tecnologia e a prontidão que temos hoje para acessar a internet, suspeitemos que essa média tenha tido uma considerável expansão nos dias atuais. Dado essa conclusão, e unindo a ideia de que a internet possibilita um espaço estudantil muito rico, mas que também é capaz de gerar um acumulo de informações falsas e estudos inverídicos vemos uma descomunal fragilidade por parte não só dos jovens, mas de toda uma massa que usufruí desse meio.

Aaron Balick, em uma entrevista para o site G1, fala que as redes sociais reduzem a noção de vergonha das pessoas, pois o que os usuários buscam, na verdade, são curtidas e compartilhamentos que sua publicação poderá alcançar.

Isso significa que estamos mais propensos a objetificar os outros e a pôr nossas próprias necessidades de validação à frente da necessidade de privacidade deles.

Ou seja, há aqui uma ideia de isolamento social, nesse caso a internet é como se fosse uma forma perfeita para se interagir. Sites como Facebook e Twitter é o principal canal que os usuários utilizam, geralmente nestas redes sociais as pessoas compartilham e postam o que elegerem serem útil para elas, sem ao menos consultar a procedência da informação, assim gerando um grande compartilhamento de ideias para sua rede de amigos.

Agarremos o exemplo do Twitter, através da rede social, é possível você acompanhar opiniões do mundo inteiro em tempo real. Nos Estados Unidos, o mundo pode ver a eleição presidencial, naquela época sendo disputada entre Barack Obama, pelos democratas, e John McCain pelos republicanos, pela rede social por exemplo, era possível acompanhar o que as pessoas comentavam sobre a campanha, e o mais interessante, como as opiniões eram formadas. Alexandre Matias, colunista do Estadão, publicou na época uma matéria titulada de “E o vencedor da eleição nos EUA foi o Twitter”, uma parte interessante que ele publicou foi:

A rede social do passarinho azul foi o principal palco durante a campanha presidencial, com assessores dos dois candidatos trocando farpas e os usuários da rede discutindo os votos, principalmente nos dias de debate.

Então o que isso representa? Simples, a comunicação.

Essa comunicação além de permitir os indivíduos comunicar-se, ela ampliou a eficácia da conexão, possibilitando que opiniões, não só políticas, mas de qualquer assunto fossem formadas.

Esses tipos de comunicações, que a internet possibilita, que focaremos neste estudo. A proposta é apresentar um consolidado de opiniões a respeito de como o dinheiro surgiu, e identificar se há opiniões diferentes, logo depois, analisaremos se há uma espécie de senso comum em relação ao assunto, e se ele está realmente correto.

Então, depois de termos uma ideia de como a internet pode nos influenciar, e fazermos criar opiniões, pegaremos um estudo de caso a respeito: Estudos sobre a Origem do Dinheiro.

Quando falamos sobre a origem do dinheiro, e buscamos entender mais sobre todo seu processo evolutivo é normal que busquemos estudos baseado na economia, ou seja, como que a economia trata a origem do dinheiro.

Para estudar o caso, propormos a seguinte ideia: utilizaremos um site de busca popular (Google), e pesquisaremos por: “A origem do dinheiro”, após isso, acessaremos os dez primeiros sites que tratam da temática, geralmente são os sites mais acessados pelos usuários. A nossa ideia aqui é pegar o que é passado pelos textos, ou seja a sua ideia central.

Então, o primeiro site que trata da temática, é justamente o site da casa da moeda, ora, nada mal para começo, não? O texto já se apresenta da seguinte forma:

A história da civilização nos conta que o homem primitivo procurava defender-se do frio e da fome, abrigando-se em cavernas e alimentando-se de frutos silvestres, ou do que conseguia obter da caça e da pesca. Ao longo dos séculos, com o desenvolvimento da inteligência, passou a espécie humana a sentir a necessidade de maior conforto e a reparar no seu semelhante. Assim, como decorrência das necessidades individuais, surgiram as trocas. (Casa da moeda, 290 anos de História)

Perceba que no fim, o texto fala da prática do escambo, que seria as trocas. Podemos dizer então que, aqui eles pressupõem que as trocas precederam o dinheiro. Ok, partiremos para os próximos textos.

O segundo texto, vem do Wikipédia, um dos sites de enciclopédia mais famosos e acessados atualmente, veja como eles tratam a “Origem e evolução do dinheiro”, precisaremos apenas do primeiro parágrafo:

A moeda, como hoje é conhecida, é o resultado de uma longa evolução. No início não havia moeda. Praticava-se o escambo, simples troca de mercadoria por mercadoria, sem equivalência de valor.

Nada mal, né? As informações batem exatamente como a casa da moeda descreveu, a moeda ou dinheiro, veio depois do escambo. Ou seja, as trocas precederam o dinheiro.

Poderíamos falar aqui dos próximos oito textos, mas seria desperdício de tempo, pois todos, exatamente todos os dez primeiros textos mais acessados sobre a origem do dinheiro falam exatamente a mesma coisa: o escambo precede a moeda.

Ok. Então que impacto isso causa para os leitores? Será que algum leitor busca outras fontes? Ou apenas aceitam a ideia sem criticar?

Como a economia trata a origem do dinheiro

David Graeber, autor do livro “Dívida – Os primeiros 5.000 Anos” tratou da temática do atual estágio do capitalismo, A análise dele põe em contrariedade a ideia de que o escambo precedeu o dinheiro. Seu capítulo, nomeado de “O mito do escambo”, logo de início fala o seguinte:

Quando os economistas falam sobre a origem do dinheiro, por exemplo, eles sempre consideram a dívida algo secundário. Primeiro vem o escambo, depois o dinheiro; o crédito só se desenvolve posteriormente.

Bingo, Graeber diz então que os economistas, quando abordam essa questão, não consideram que o dinheiro ou dívida estavam presentes na época do escambo, para eles, o escambo veio antes do dinheiro. Fortifica Graeber:

Os economistas geralmente falam em três funções do dinheiro: meio de troca, unidade de contas e reserva de valor. Todos os manuais econômicos tratam o meio de troca como função primária

Conseguimos solidificar o argumento de Graeber quando vemos as pesquisas que fizemos anteriormente, para reforçar, vamos para o terceiro site, desta vez intitulado: “Do Escambo à criação do dinheiro, confira a evolução do sistema bancário”, está é uma matéria do site Mega Curioso, onde eles começam o texto questionando:

Você consegue imaginar um mundo sem cédulas, moedas, caixas eletrônicos – e até sem o acesso aos bancos por meio da internet? Pois nem sempre tivemos tanta facilidade, tecnologia e inclusive segurança ao nosso dispor. Assim, da troca de mercadorias, passando pelo surgimento de unidades monetárias. (Mega Curioso, 2016)

Olha só, parece realmente um manual, onde todos os assuntos fazem o mesmo tipo de abordagem. Portanto, partindo de estudos de antropólogos, vamos ver como que a informação hoje na internet (de maneira errônea) pode contribuir para a criação de um senso comum. Graeber, fala:

Quase todos os manuais de economia usados hoje em dia colocam o problema da mesma maneira. Historicamente, afirmam eles, sabemos que houve uma época em que não existia dinheiro. Como poderia ter sido essa época? Ora, imaginemos uma economia parecida com a que temos hoje, mas sem dinheiro. Seria algo certamente inconveniente! É claro, as pessoas inventaram o dinheiro visando à eficiência.

Mais à frente ele explica:

Há uma razão simples que leva todos os autores de manuais de economia a nos contar a mesma história. Para os economistas, trata-se, em um sentido muito verdadeiro, da história mais importante que já nos foi contada. Foi contando essa história, no significativo ano de 1776, que Adam Smith, professor de filosofia moral da Universidade de Glasgow, criou efetivamente a economia como disciplina [...]

[...] é válido esmiuçar o argumento de Adam Smith porque, como eu disse, trata-se do grande mito fundador da economia como disciplina.

Lendo os textos pesquisados na web por nós, ficou bem claro e inquestionável a semelhança de todos, neles conseguimos observar um certo modo de pensar da maioria dos autores, o que consequentemente refletirá nos leitores, gerando assim, a ideia de senso comum, Graeber em seu livro falou sobre isso:

Em outras palavras, a visão de mundo que está na base dos manuais de economia, cujo estabelecimento se deve tanto a Adam Smith, tornou-se parte tão fundamental do senso comum que para nós é difícil imaginar outra possível configuração.

Então aqui já avançamos mais um passo, a partir de agora temos como fonte Adam Smith, que fez estudos sobre e publicou um livro. Já que falamos do senso comum, e ainda antes de falar de Smith, seria interessante que falássemos de Marx e o seu conceito sobre mercadoria, que nada mais é que o átomo do sistema capitalista.

Marx promove que a mercadoria possui uma dupla natureza, havendo paralelamente um valor de uso e valor de troca.

O valor de troca, no que lhe diz respeito, era ostensivo em teor monetário, isso quer dizer, capacidade de mercadoria-dinheiro precisa para adquirir a mercadoria pretendida. O dinheiro era considerado como uma mercadoria exclusiva

O dinheiro manifesta-se, então, como um dever para a realização de trocas. Para que uma mercadoria tenha o significado de dinheiro, é preciso que a sociedade a aceite como valor.

A partir disso, entraremos com a ideia de Smith, utilizaremos seu livro “A riqueza das nações”, onde tiramos um trecho que fala sobre:

Quando a divisão do trabalho estava apenas em seu início, esse poder de troca deve ter deparado frequentemente com grandes empecilhos. Podemos perfeitamente supor que um indivíduo possua uma mercadoria em quantidade superior àquela de que precisa, ao passo que outro tem menos. Consequentemente, o primeiro estaria disposto a vender uma parte do que lhe é supérfluo, e o segundo a comprá-la. Todavia, se esse segundo indivíduo não possuir nada daquilo que o primeiro necessita, não poderá haver nenhuma troca entre eles. O açougueiro possui mais carne do que a quantidade de que precisa para seu consumo, e o cervejeiro e o padeiro estariam dispostos a comprar uma parte do produto. Entretanto, estes nada têm a oferecer em troca [...]. A fim de evitar o inconveniente de tais situações, todo homem prudente, em qualquer sociedade e em qualquer período da história após ter se estabelecido pela primeira vez a divisão do trabalho, deve naturalmente ter se empenhado em conduzir seus negócios de tal forma que a cada momento tivesse consigo, além dos produtos diretos de seu trabalho, certa quantidade de uma mercadoria ou outra - mercadorias tais que, em seu entender, poucas pessoas recusariam receber em troca do produto do trabalho delas.

Podemos ver então que, as pessoas de acordo com as dificuldades que iam encontrando nas trocas, perceberam que as mercadorias tinham certos valores, e por isso, era interessante que elas começassem a estocar tudo aquilo que elas acreditavam ser interessantes para as outras pessoas.

Para Smith, o dinheiro era uma questão de crença, ou seja, para ele ter valor, você tem que acreditar nele, essa crença fez com que novos produtos aparecessem no mercado, e cada grupo começou a adotar um item especifico como meio de troca universal, esse bem precisava ser amplamente aceito pelo mercado, ter utilidade, ser durável, facilmente transportável, divisível e por fim, ser escasso.

Adam Smith, de fato, popularizou essa ideia de que o escambo veio antes do dinheiro, no seu livro, ele descreve um episódio onde um padeiro que vivia em uma época supostamente que não havia dinheiro, queria carne de um açougueiro, porém, esse padeiro não tinha nada que interessasse o dono da carne, Smith então enfatiza, que neste caso não é possível realizar nenhum tipo de troca:

O açougueiro tem consigo mais carne do que a porção de que precisa para seu consumo, e o cervejeiro, e o padeiro estariam dispostos a comprar uma parte do produto. Entretanto, não têm nada a oferecer em troca, a não ser os produtos diferentes de seu trabalho ou de suas transações comerciais, e o açougueiro já tem o pão e a cerveja de que precisa para seu consumo. Neste caso, não poderá haver nenhuma troca entre eles.

E esse cenário era tão cabuloso, que a sociedade deve ter criado o dinheiro para que pudesse favorecer o comercio. Smith fala então do metal e como ele poderia ser considerado uma moeda de troca, o trecho do seu livro explica bem seu ponto de vista:

Entretanto, ao que parece, em todos os países as pessoas acabaram sendo levadas por motivos irresistíveis a atribuir essa função de instrumento de troca preferivelmente aos metais, acima de qualquer outra mercadoria. Os metais apresentam a vantagem de poderem ser conservados, sem perder valor, com a mesma facilidade que qualquer outra mercadoria, por ser difícil encontrar outra que seja menos perecível; não somente isso, mas podem ser divididos, sem perda alguma, em qualquer número de partes, já que eventuais fragmentos perdidos podem ser novamente recuperados pela fusão - uma característica que nenhuma outra mercadoria de durabilidade igual possui, e que, mais do que qualquer outra, torna os metais aptos como instrumentos para o comércio e a circulação.

Então, visto que o açougueiro não podia negociar com o padeiro e o cervejeiro, todas as pessoas a fim de evitar essas situações, passou a adotar, além de seus produtos, certas quantidades de algumas outras mercadorias. Com isso, a vantagem dos metais, por suas ótimas características.

Sendo assim, conseguimos entender o que Graeber chama de manuais da economia, e o porquê do senso comum. Fica claro que, a influência de um filósofo a partir do momento em que escreve um livro onde fala que o escambo foi precursor do dinheiro, onde é um assunto pouco estudado, as pessoas adotem sua ideia sem questionar. Isso também reflete no que falamos no início sobre as pesquisas e as suas semelhanças.

Onde o senso comum é posto à prova

A partir de agora, verifiquemos o outro lado da moeda, onde buscaremos um estudo em cima das ideias de Smith, e verificar se o senso comum realmente é o correto a ser seguido como estudo sobre a origem do dinheiro.

O primeiro ponto a se destacar, seria um dos argumentos que Graeber utiliza em seu texto, onde ele fala que não há nenhum indicio em que realmente o escambo aconteceu, em suas palavras:

O problema é que não há nenhum indício de que isso um dia aconteceu, mas há numerosos indícios sugerindo que possa não ter acontecido.

Em seguida, ele fala que há bastante tempo pesquisadores buscam encontrar a lendária terra do escambo, porém até então, sem sucesso. Nessa mesma época, missionários, aventureiros e administradores coloniais buscaram encontrar essa terra, porém sem sucesso também:

Missionários, aventureiros e administradores coloniais viajavam pelo mundo todo e levavam consigo cópias do livro de Adam Smith, esperando encontrar a terra do escambo. Ninguém nunca encontrou. O que descobriram foi uma variedade quase infinita de sistemas econômicos. Até hoje, ninguém conseguiu localizar nem uma parte do mundo sequer onde o modo comum de transação econômica entre vizinhos seja na forma de troca de “vinte galinhas por uma vaca".

Ou seja, isso só fortifica a ideia de que Smith se precipitou com sua visão de escambo. Caroline Humphrey, em um artigo de 1985, sobre o escambo, escreve que: “Nenhum exemplo de uma economia de escambo, pura e simples, já foi descrito, e muito menos o aparecimento de dinheiro a partir dela”. Tudo isso quer dizer que o escambo nunca existiu.

Mais um argumento utilizado por Graeber é o das comunidades de nativos americanos Iroquois, onde a principal instituição econômica eram habitações coletivas, onde os produtos eram estocados e depois distribuídos pelos conselhos de mulheres.

Então finalizamos essa parte da discussão onde seria importante entender o mito do escambo, onde historicamente vemos que o escambo surgiria primeiro e depois o dinheiro, conseguimos ver com os estudos de antropólogos que a ideia de Adam Smith era equivocada, e que de fato, não encontraram nenhuma evidencia que revelasse o escambo antes da moeda.

Portanto, comprovamos nossa ideia inicial, onde falamos que a internet é capaz de formar opiniões. Através deste estudo sobre a origem da moeda, tínhamos uma noção inicial, feito através de sites bastante acessados, que seria a ideia de que a moeda veio com uma necessidade de evolução a partir da prática do escambo, porém, vimos que isso é apenas um senso comum, que foi influenciada principalmente por Adam Smith com a publicação de seu livro, e a partir daí, começou a ser publicados estudos e mais estudos com esta ideia, porém antropólogos que buscaram estudar o assunto mais afundo quebrou essa ideia pois não encontraram nenhuma evidência documental que provasse realmente a prática do escambo antes da moeda, pelo contrário, encontraram provas de que a dívida e o dinheiro vieram antes.

Relacionando os textos

Aqui vamos buscar informações de outros textos para então tentar trazer alguma semelhança entre eles.

O primeiro, é um texto de Marshall Sahlins, titulado de: “La pensée bourgeoise: a sociedade ocidental como cultura. ” Resumidamente, Sahlins tenta fazer um comparável do pensamento burguês e a percepção das mercadorias, para assim poder comparar a um código simbólico cultural, que está meio que cravado no entendimento dos usuários a respeito das mercadorias.

O que isso pode nos trazer de ideia com o que elaboramos acima?

Sahlins, discute ideias Marxistas, ideias como o materialismo histórico. Quando falamos de sociologia Marxista, falamos de uma sociologia que é baseada no materialismo histórico, ou seja: a interpretação da história da humanidade a partir de um aspecto material, ou melhor, na forma como a sociedade se organiza para produzir materialmente aquilo que é necessário para sua subsistência, para o acumulo, enfim, para garantir a satisfação de suas necessidades.

E partindo dessa perspectiva materialista da história, ou seja, dos aspectos físicos, dos aspectos materiais que são necessários para garantir a sobrevivência de uma sociedade, Marx desenvolve o conceito de determinismo econômico, ou seja, a concepção de que a economia de uma sociedade, a maneira como a sua economia está organizada vai determinar todas as demais relações sociais, nesse sentido podemos compreender então que as relações sociais nada mais são do que relações de produção, uma vez que todas as nossas relações possuem algum tipo de determinante, algum tipo de fator econômico que permite que essas relações ocorram. Sahlins, quando fala de simbolismo, fala de fetichismo, em nosso texto abordamos a ideia de mercadoria para Marx, onde ele fala que a célula principal do capitalismo é a mercadoria, essa mesma mercadoria, que vai compor os ganhos do capitalista, ela é primeiro feito na produção, no entanto, na esfera da produção é extraído um excedente produzido, e esse excedente vai compor o que Marx chamou de Mais Valia, e a realização dessa mais valia vai completar-se na esfera da circulação, ou do mercado. Então a mercadoria como célula fundamental vai ter que passar por esses dois processos. Marx, com essas ideias chega à conclusão que, no capitalismo, onde há uma necessidade de alavancar a circulação e realização do valor, a ideologia por trás desse sistema vai produzir o chamado fetichismo da mercadoria. Então, como falamos, se as relações sociais nada mais são do que relações de produção, Sahlins descobre referências de simbolismo na alimentação e vestuário de seu país, que levaria ao totemismo moderno. Sahlins fala da variação que os objetos podem significar, ou seja, a relevância que cada um pode ter para determinado público.

Partindo daí o que podemos levar para os estudos de Graeber?

Em seu texto, ele cita diversos fatores que comprovam que o escambo de fato não existiu, um interessante é como os índios nambiquaras, no Brasil, negociavam mercadorias, tinha todo um ritual, porém, na parte de troca, eles meio que atribuíam um valor a determinado objeto, por exemplo: se eu quero muito um produto, eu enalteço-o, porém se eu tenho um produto, e não quero me desfazer do mesmo, eu falo que o mesmo não é tão bom, afim de fazer com que o interessado desista. Graeber também dá o exemplo dos Gunwinggus, que é capaz de fazer negociações de uma forma mais relaxada, e festivo. O ambos têm em comum é o que Graeber fala:

Indivíduos buscam o acordo mais vantajoso para a troca de calçados por batatas, ou de roupas por lanças, é preciso assumir que a troca desses bens não tem nada a ver com guerra, paixão, aventura, mistério, sexo ou morte. A economia pressupõe uma divisão entre diferentes esferas do comportamento humano que, entre povos como os Gunwinggus e os nambiquaras, simplesmente não existe.

Então com a busca desses acordos mais vantajosos, a gente assemelha ao texto de Sahlins:

Ele é promovido justamente na medida em que valor de troca e de consumo dependem de decisões de “utilidade”. Tais decisões giram em torno da significância social de contrastes concretos entre os produtos. É por suas diferenças de sentido em relação a outros produtos que os objetos se tornam trocáveis: com isso convertem-se em valores de uso para algumas pessoas, as quais são correspondentemente diferenciadas de outros sujeitos (SAHLINS, 2004)

Então para concluir, a semelhança, encontra-se aqui, onde o valor de troca depende de utilidades, como diz Sahlins, exatamente o que Graeber traz com os exemplos citados, a utilidade faz com que gere esse valor, e suas devidas variações de significância para as mercadorias, como dito também por Sahlins.

Referências bibliográficas

GRAEBER, David (2011). Debt: The First 5,000 Years. New York: Melville House Publishing.

MARX, Karl. O Capital. Livro I. 3. ed. São Paulo: Nova Cultural: 1988.

WILLIAMS, Raymond. Cultura e Materialismo. Tradução André Glaser. São Paulo: Editora UNESP, 2011.

PUTNAM, Hilary. Reason, Truth and History. Cambridge: Cambridge University Press, 1981.

SAHLINS, Marshall. La pensée bourgeoise: a sociedade ocidental como cultura. In: Cultura na prática (cap. 5). Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2004.

Smith, Adam. A riqueza das nações, liv. 1,4-2. [Ed. bras.: A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. Tradução de Luiz João Baraúna, São Paulo: Nova Cultural, 1996.]

O que restou do sonho americano, Lourenço de Lima, Eliana. [https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/5750/5384]

Escala de Significado do Dinheiro: Desenvolvimento e Validação. Moreira, Alice, UFPA [http://www.scielo.br/pdf/ptp/v15n2/a02v15n2]

https://pt.wikipedia.org/wiki/Queda_do_Imp%C3%A9rio_Romano_do_Ocidente

https://medium.com/@rafaspol/o-mito-do-escambo-na-origem-do-dinheiro-4918e2397d28

https://www.megacurioso.com.br/historia-e-geografia/101548-do-escambo-a-criacao-do-dinheiro-confira-a-evolucao-do-sistema-bancario.htm

http://www.fundacaoastrojildo.com.br/2015/article/divida-os-primeiros-5000-anos/

http://www.letacio.com/blog/2016/02/27/critica-da-doutrina-de-que-a-troca-precedeu-a-moeda/

https://www.pstu.org.br/marx-por-marx-a-genese-da-moeda/

https://guilhermetissot.wordpress.com/2010/06/30/mercadorias-valor-valor-de-uso-e-valor-de-troca-para-marx/