Composições farmacêuticas contendo fração obtida do extrato rhizophora mangle e seu uso

  • Número do pedido da patente:
  • BR 10 2012 028815 0 A2
  • Data do depósito:
  • 09/11/2012
  • Data da publicação:
  • 26/05/2015
Inventores:
  • Classificação:
  • A61P 1/04
    F?rmacos para o tratamento de dist?rbios do trato alimentar ou do sistema digestivo; / para ?lceras, gastrite ou esofagite de refluxo, p. ex. anti?cidos, inibidores de secre??o ?cida, protetores da mucosa;
    ;
    A61K 36/185
    Prepara??es medicinais contendo materiais de constitui??o indeterminadas derivados de algas, l?quens, fungos ou plantas, ou derivados dos mesmos, p. ex. medicamentos tradicionais ? base de ervas; / Magnoliophyta (angiospermas); / Magnoliopsida (dicotiled?neas);
    ;
    A61K 31/353
    Prepara??es medicinais contendo ingredientes ativos orgânicos; / Compostos heteroc?clicos; / tendo oxig?nio como o ?nico hetero?tomo de um anel, p. ex. fungicromina; / tendo an?is de seis membros com um oxig?nio como o ?nico hetero?tomo de um anel; / condensado com an?is carboc?clicos, p. ex. canabin?is, metantelina; / 3,4-Dihidrobenzopiranos, p. ex. cromano, catequina;
    ;

COMPOSIÇÕES FARMACÊUTICAS CONTENDO FRAÇÃO OBTIDA DO EXTRATO Rhizophora mangle E SEU USO. A presente invenção descreve uma forma de fracionamento de extrato de R. mangle através da qual é possível concentra-se de forma eficientemente quantidade significativa de taninos complexos. A fração obtida pelo método proposto apresenta efeito surpreendente no tratamento e úlceras e injúrias gastrointestinais, quando comparadas com o medicamento que é atualmente utilizado para essa finalidade, por utilizar dose até 60 vezes menor do que esse e com a mesma eficiência. Dessa forma, são descritas na presente invenção composições medicamentosas ou farmacêuticas envolvendo a fração butanólica obtida, bem como a proposição dos compostos contido nessa fração.

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Documento

“COMPOSIÇÕES FARMACÊUTICAS CONTENDO FRAÇÃO OBTIDA DO EXTRATO Rhizophora mangle E SEU USO”
Campo da invenção

A presente invenção descreve uma forma de fracionamento de extrato de Rhizophora. mangle através da qual é possível concentra-ser eficientemente quantidade significativa de taninos complexos. Dessa forma, a fração obtida pelo método proposto apresenta efeito surpreendente no tratamento de úlceras e injúrias gastrointestinais, quando comparadas com o medicamento que é atualmente utilizado para essa finalidade, por utilizar dose até 60 vezes menor do que esse e com a mesma eficiência.

Portanto, a presente invenção descreve a utilização da fração butanólica obtida em composições farmacêuticas ou medicamentosas com excipientes aceitáveis.

Fundamentos da Invenção Proteção da mucosa gástrica

A mucosa gástrica mantém sua integridade estrutural e funcional apesar de estar constantemente exposta a fatores nocivos como HCI e pepsina, os quais são capazes de digerir tecido. Sob condições normais, a integridade da mucosa é mantida pelos mecanismos defesa, os quais incluem fatores pré-epiteiiais, uma barreira epitelial (superfície das células epiteliais justapostas secretando muco, gerando bicarbonato, peptídeos, prostaglandinas, e “heat shock proteins”), renovação contínua de células aperfeiçoados por células progenitoras (regulados por fatores de crescimento e PGE2), contínuo fluxo sanguíneo através de microvasos da mucosa, além de barreira endotelial, inervação sensorial, geração de PGs e oxido nítrico (NO) e mecanismos antioxidantes (Laine et al., 2008). Prostaglandinas

As prostaglandinas estão envolvidas numa séria de processos fisiológicos no estômago, incluindo secreção ácida, produção de muco e fluxo sanguíneo na mucosa gástrica (Robert & Ruwart, 1982). Foi estabelecido que a supressão da síntese de PGs no estômago, através da inibição das cicloxigenases (1 e 2), é o componente chave para o mecanismo da ulceração no trato grastrintestinal. DAINES induzem ulceração na mucosa gástrica por reduzirem a síntese de PGs via inibição da cicloxigenases. As conseqüências desta redução são constatadas pela diminuição de secreção de muco e bicarbonato e do fluxo sanguíneo local (Cryer, 2000), além disso, o contato direto das DAINES com a mucosa gástrica ataca os fosfolipídeos presentes tanto no muco quanto no epitélio gástrico, o que interfere severamente a hidrofobicidade da camada de muco, causando então uma retro-difusão de íons hidrogênio (Bjorkman, 1996, e Berstad et ai, 2002).

O efeito biológico das PGs, neste caso da PGE2, é mediado via receptores específicos de membrana, denominados EP (EP1, EP2, EP3 e EP4), que são acoplados a proteínas-G de membrana, ligadas a diferentes vias de transdução de sinal intracelular (Sugimoto et al., 2000; Dey et al., 2006). Ligantes de PGE2 a receptores EP1 resultam na liberação intracelular de trifosfato de inositol (IP3) e diacilglicerol (DAG); ligantes de EP2 e EP4 ativam o sistema adenilato ciclase-AMPc; por último, ligantes EPS inibem esse sistema (Pawlick, 2002; Dey et ai, 2006).

A PG exerce proteção por aumentar tanto a secreção de muco e bicarbonato quanto a resistência de células epiteliais contra danos causados por citotoxinas, além de manter o fluxo sanguíneo da mucosa (Hawkey & Rampton, 1985). Além disso, a demonstração de que PGE2 inibe a secreção ácida também colabora para que este mediador seja considerado um fator importante na proteção da mucosa gástrica.

Óxido nítrico (NO)

O óxido nítrico tem importante papel na modulação da defesa da mucosa gástrica, como: regulador na secreção de muco (Brown et al., 1993), vasodilatador, produzindo aumento do fluxo sanguíneo local (Wallace, 2000), inibidor da migração de neutrófilos (Banick et al., 1997) e auxiliar no processo de cicatrização da úlcera gástrica (Jadeski & Laia, 1999). Nesta última, a ação do NO produz aumento da deposição de colágeno pelos fibroblastos além de estimular a angiogênese (Wallace, 2000). O NO exerce amplo espectro de atividades biológicas in vivo dependentes, em parte, da guanosina-3’, 5’-monofosfato cíclica (cGMP) produzida após estimulação do guanilato ciclase solúvel (Moncada, et al., 1991). Nas células musculares lisas essa estimulação resulta em relaxamento. O NO pode atuar também diretamente em canais de potássio dependentes de cálcio, levando a uma hiperpolarização dependente do endotélio, resultando em vasodilatação (Bolotina et al., 1994).

As três enzimas produtoras de NO são as NO-sintases: nNOS (neuronal), eNOS (endotelial), e a induzida (ou inflamatória) iNOS, que têm sido caracterizadas no trato gastrintestinal. A iNOS produz grande quantidade de NO causando danos e, portanto, inibição específica dessa enzima é benéfica. As NOS constitutivas mantém a barreira mucosa intacta (Kubes & McCafferty, 2000).

Estímulos apropriados, tais como respostas inflamatórias (por exemplo, a presença de úlcera gástrica), aumentam a atividade da iNOS (Kristjansson et al., 2005). O bloqueio do NO aumenta o estresse oxidativo, ativando mastócitos, que são células encontradas em grandes quantidades no trato gastrintestinal, e que liberam mediadores como histamina e fator ativador de plaquetas (RAF), causando aumento da permeabilidade epitelial (Kanwar et al., 1994).

Muco e bicarbonato

A primeira linha de defesa contra o ácido é a barreira de muco (Phillipson et al., 2002). O epitélio gástrico é recoberto por uma contínua camada de muco aderida à superfície mucosa. Esse muco, juntamente com o bicarbonato secretado pelo epitélio, serve como barreira contra a autodigestão causada pelo ácido e pepsina (Allen & Flemstrom, 2005). O muco se apresenta de forma viscosa, elástica e aderente na forma de um gel transparente composto por 95% de água e 5% de glicoproteína, que recobre a superfície da mucosa gastrintestinal (Reppeto & Lleusly, 2002). O muco gástrico possui também atividade antioxidante devido às glicoproteínas, sendo os açúcares potentes seqüestradores de espécies reativas de oxigênio (EROs) (Mojzis et ai, 2000).

A secreção do muco gástrico é controlada por vários fatores em diferentes vias. PGs, NO e secretina, estimulam a secreção de muco (Tani et al., 1997); nos receptores que medeiam a secreção de muco muitas substâncias fisiologicamente ativas, incluindo neurotransmissores, autacóides e hormônios servem de fatores secretagogos (Johnson & Alpers, 1994).

Fluxo sanguíneo

Um dos papéis do fluxo sanguíneo é suprir a mucosa com oxigênio, nutrientes e hormônios, além de participar na regulação da saída de ácido, produção de muco, secreção de bicarbonato e remoção dos produtos do tecido, incluindo a retro-difusão de íons hidrogênio, assim, o fluxo sanguíneo contribui substancialmente para a manutenção fisiológica da integridade da mucosa. A redução deste está envolvida na formação das lesões na mucosa gástrica causadas por estresse, etanol e DAINES (Kawano & Tsuji, 2000).

A micro-circulação é modulada pelo sistema nervoso e mediadores como NO, bradicinina e PGs. Difusão de ácido ou toxinas na mucosa resulta em elevação crítica dofluxo sanguíneo mediada por neurônio sensorial aferente, limitando danos a facilitando a reparação. O sangue dilui e/ou neutraliza o ácido/toxina e previne o acúmulo de altas concentrações na mucosa (Wallace & Ma, 2001).

Grupamentos suifidrílicos (GSH)

O papel gastroprotetor dos grupamentos suifidrílicos endógenos (compostos suifidrílicos), presentes no muco gástrico e em diversas enzimas do sistema xantina-oxidase, já foi demonstrado em diversos modelos de indução de úlcera (etanol, DAINES, e estresse), nos quais ocorre depleção destes compostos (Hernandez-Munoz et al., 2000 e Bayir et al., 2006). O pré-tratamento com bloqueadores de grupamentos sulfidrílicos como o N-ethylmaleimide (NEM) demonstrou potencializar significativamente a indução de úlceras gástricas (Hiraishi et al., 1994), enquanto que aumentos significativos desses grupamentos promovem gastroproteção (Sener-Muratoglu et ai, 2001).

No processo inflamatório, EROs são geradas e iniciam uma reação em cadeia que culmina na peroxidação lipídica e morte celular (Tariq et al., 2006). Os compostos sulfidrílicos ligam-se aos radicais livres formados durante este processo ou produzidos após exposição a agentes nocivos, protegendo assim a mucosa gástrica (Avilla etal., 1996).

Estes agentes são também importantes na produção e manutenção do muco gástrico, uma vez que suas subunidades glicoprotéicas são unidas entre si por pontes dissulfeto que, uma vez reduzidas, tornam o muco hidrossoiúvel (Salim, 1992 e Avilla etal., 1996).

Reconstituição e renovação do epitélio gástrico

O estômago possui várias formas de se proteger quando exposto continuamente a altas concentrações de ácido; uma das estruturas mais importantes é o epitélio gástrico. Ele é freqüentemente renovado, sendo as células “velhas” deslocadas em direção ao lúmen. O epitélio gástrico humano renova-se completamente a cada 2-4 dias. A habilidade em permitir que as células velhas sejam repostas por células mais jovens, sem quebra significante da barreira, é atribuída a um processo de extensão celular, ou seja, células vizinhas gradualmente “apertam” as células envelhecidas na base (Wallace & Granger, 1996).

O termo reconstituição refere-se ao processo de reparo epitelial da mucosa, que envolve migração rápida de células cicatrizantes aos locais lesionados na base da membrana desprotegida. As células gástricas estão ligadas à membrana basal da célula epitelial e este local é bastante sensível aos danos induzidos por ácido (Paimela etal, 1995).

A cicatrização da mucosa na úlcera gástrica requer reconstituição da estrutura glandular epitelial (re-epitelização), restauração da lâmina própria incluindo uma rede microvascular na mucosa, nervos e células de tecidos conjuníivos (Milani & Calabro, 2001). A cicatrização das úlceras é acompanhada de um aumento do fluxo sanguíneo gástrico na área da úlcera, de gastrina plasmática além de citocinas pró-inflamatórias como TNF-a e IL-1(3.

A hipergastrinemia que ocorre durante o período anterior à cicatrização da úlcera pode ser atribuída à supressão de acidez gástrica e expressão de fatores de crescimento (Brzozowski et ai, 2001).

A mucosa gástrica, situada na margem da úlcera, forma uma “zona de cicatrização”, glândulas dessa região começam a dilatar e as células de revestimento dessas giândulas sofrem diferenciação. A ativação de fator de crescimento epidermal (EGF) e proliferação celular é iniciada três dias após a implantação da úlcera e é essencial para a cicatrização. De modo geral, os fatores de crescimento promovem proliferação e migração de células epiteliais para a cratera da úlcera, levando à re-epitelização dessa cratera e maturação das glândulas. Na base da úlcera ocorre granulação de tecido com remodelação contínua. A angiogênese (formação de microvasos) facilita essa remodelação por liberar oxigênio e nutrientes. Células inflamatórias são substituídas por fibroblastos e microvasos na fase final da cicatrização (Chan & Sung, 2001). A angiogênese é importante então para o reparo, tanto de dano agudo quanto crônico, durante a cicatrização de úlceras gastroduodenais (Malara et ai, 2005).

Os radicais livres e a defesa antioxidante

A história dos radicais livres na biologia e medicina começou de fato quando em McCord e Fridovich (1969) descobriram a superóxido dismutase (SOD), uma enzima capaz de destruir o radical ânion superóxido pela redução univalente do oxigênio. A partir daí observou-se crescimento exponencial dos artigos científicos que mostravam a excessiva produção de “espécies reativas de oxigênio” (EROs) ou “radicais livres” implicada na patogênese de várias doenças em humanos.

EROs podem ser formadas pela ativação de células inflamatórias, durante o metabolismo de xenobióticos, ou a partir da xantina oxidase durante lesões formadas por isquemia-reperfusão (Blake et al., 1987; Cross et al., 1987; Grisham & Granger, 1988; Braganza, 1989).

Radicais livres estão envolvidos na patofisiologia de várias doenças gastrintestinais (úlceras e inflamações) e hepáticas (Arthur et al., 1988; Braganza, 1989; Rozga, 1989; Verspaget et al., 1991; Babbs, 1992; Harris et al., 1992; Stark & Szurszewski, 1992; Van der Vliet & Bast, 1992; Simmonds, 1995; Yoshida, 1995).

O metabolismo de ácido araquidônico, macrófagos e neutrófilos geram EROs que podem contribuir para danos causados na mucosa gástrica (Rosen et al., 1995). Os seqüestradores de EROs são utilizados para proteger a mucosa gástrica do dano oxidativo e acelerar a cicatrização de úlceras. O desequilíbrio entre a formação e a remoção dos radicais livres no organismo, decorrente da diminuição dos antioxidantes endógenos ou do aumento da geração de espécies oxidantes gera um estado pró-oxidante que favorece a ocorrência de lesões oxidativas em macromoléculas e estruturas celulares, inclusive podendo resultar na morte celular (Gutteridge, 1993; Halliwell & Gutteridge, 2005).

De acordo com Augusto (2006) as defesas antioxidantes do organismo podem ser enzimáticas e não enzimáticas endógenas, e também podem vir da dieta.

As enzimáticas são constituídas por superóxido dismutases, catalases,    GSH    peroxidades,    GSH    redutases, peroxirredoxinas,

tiorredoxinas, enzimas de reparo, que sintetizam GSH e que repõe NADPH, enquanto as não-enzimáticas são GSH, ácido úrico e albumina.

Dentre aquelas provenientes da dieta são encontrados: ácido ascórbico, a-tocofero! (vitamina E), (3-caroteno, polifenóis, flavonóides, etc. Em condições normais a concentração destas espécies dentro das células é extremamente baixa pelo fato de existirem enzimas antioxidantes que as removem, ou impedem sua formação. Estes radicais tendem a ser eliminados do organismo pelas enzimas superóxido dismutase, catalase (CAT), glutationa peroxidase (GPx) e glutationa redutase (GR) (McCord & Fridovich, 1969; Halliwell & Gutteridge, 2005).

Antioxidantes endógenos e derivados da dieta são indispensáveis para a manutenção da saúde frente ao ataque de radicais livres; dentre os derivados da dieta encontra-se grande variedade de antioxidantes, muito dos quais representados pelos potentes polifenóis. Esses compostos podem exercer seus efeitos benéficos no trato gastrintestinal, uma vez que este é possivelmente o principal local de ações pro e antioxidantes. Todas as condições patológicas encontradas no trato gastrintestinal envolvem espécies reativas e danos oxidativos durante sua progressão e até mesmo antes de sua origem (Halliwell et ai, 2000; Halliwell & Gutteridge, 2005). Polifenóis, os taninos vegetais

Taninos são uma classe de compostos, substâncias fenólicas solúveis em água com massa molecular de até 3000 Dalton, as quais apresentam habilidade de formar complexos insolúveis em água com alcalóides, gelatina e outras proteínas.

Os taninos são particularmente importantes como componentes gustativos, sendo responsáveis pela adstringência de muitos frutos ou cascas em produtos alimentícios vegetais. A complexação entre taninos e proteínas é a base para suas propriedades como fatores de controle de insetos, fungos e bactérias tanto quanto para suas atividades farmacológicas (Santos & Mello, 2004)