Formulação cosmética de protetor solar à base de terminalia fagifolia mart. et zucc (combretaceae)

  • Número do pedido da patente:
  • BR 10 2012 009539 4 A2
  • Data do depósito:
  • 11/04/2012
  • Data da publicação:
  • 19/11/2013
Inventores:
  • Classificação:
  • A61K 8/97
    Cosm?ticos ou prepara??es similares para higiene pessoal; / caracterizado pela composi??o; / contendo materiais, ou derivados destes, de constitui??o desconhecida; / de origem vegetal, p. ex. extratos de plantas;
    ;
    A61Q 19/00
    Prepara??es para tratamento da pele;
    ;

FORMULAÇÃO COSMÉTICA DE PROTETOR SOLAR À BASE DE TERMINALIA FAGIFOLIA MART. ET ZUCC (COMBRETACEAE). A presente invenção se refere ao campo da cosmetologia e propõe o uso de extratos da espécie vegetal terminalia fagifolia mart. et zucc, pertencente à família botânica combretaceae, como componente ativo adicional na formulação de fotoprotetores ou protetores solares com a finalidade de reduzir a proporção de filtros solares sintéticos nessas formulações através da adição de um produto natural obtido de uma planta medicinal. Os extratos de terminalia fagifolia podem ser obtidos de qualquer parte da planta, preferencialmente da casca do caule ou das folhas, com a utilização de solventes compostos, por exemplo, de água, soluções aquosas, álcoois, ésteres ou misturas de dois ou mais desses solventes e podem ser adicionados às formulações na proporção de 3% a 35% por peso. As formulações de filtros ou protetores solares contendo extratos de terminalia fagifolia podem compreender ainda, adicionalmente, fotoprotetores inorgãnicos, tais como, por exemplo, dióxido de titânio ou óxido de zinco, ou orgãnicos, tais como, por exemplo, homosalato ou benzofenona-3, e fotoestabilizantes, como o octocrileno, por exemplo, além de componentes adjuvantes, excipientes e aditivos, e apresentar fator de proteção solar (FPS) de 2 a 60 de amplo espectro (proteçãoo UVA e UVB).

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Documento

FORMULAÇÃO COSMÉTICA DE PROTETOR SOLAR À BASE DE TERMINALIA FAGIFOLIA MART. ET ZUCC (COMBRETACEAE).

CAMPO DA INVENÇÃO

A presente invenção se refere ao campo da-cosmetologia e propõe o uso de extratos da espécie vegetal Terminalia fagifolia Mart. et Zucc, pertencente à família botânica Combretaceae, como componente ativo adicional na formulação de fotoprotetores ou protetores solares com a finalidade de reduzir a proporção de filtros solares sintéticos nessas formulações através da adição de um produto natural obtido de uma planta medicinal. Os extratos de Terminalia fagifolia podem ser obtidos de qualquer parte da planta, preferencialmente da casca do caule ou das folhas, com a utilização de solventes compostos, por exemplo, de água, soluções aquosas, álcoois, ésteres ou misturas de dois ou mais desses solventes e podem ser adicionados às formulações na proporção de 3% a 35% por peso. As formulações de filtros ou protetores solares contendo extratos de Terminalia fagifolia podem compreender ainda, adicionalmente, fotoprotetores inorgânicos, tais como, por exemplo, dióxido de titânio ou óxido de zinco, ou orgânicos, tais como, por exemplo, homosalato ou benzofenona-3, e fotoestabilizantes, como o octocrileno, por exemplo, além de componentes adjuvantes, excipientes e aditivos, e apresentar fator de proteção solar (FPS) de 2 a 60 de amplo espectro (proteção UVA e UVB).

ESTADO DA TÉCNICA

A luz solar, que diumamente atinge a superfície terrestre, é composta predominantemente de fótons de radiação infravermelha (780 a 5.000 nm) e de luz visível (400 a 780 nm), com uma pequena fiação de fótons de radiação ultravioleta (290 a 400 nm), de aproximadamente 5% (Kullavanijaya, P; Lim, HW. Journal of the American Academy of Dermatology, 52, 937-958, 2005). O organismo humano percebe a radiação infravermelha (IV) diretamente através da sensação de calor, por conta do seu principal efeito biológico na pele, o aquecimento. A luz visível (LV), além de também produzir calor, é percebida especificamente pelo sentido especial da visão. A radiação ultravioleta (UV), por sua vez, é percebida de maneira indireta por meio das manifestações, principalmente na pele e nos olhos, decorrentes das diferentes reações fotoquímicas que provoca ao interagir com os componentes químicos das células e tecidos humanos.

Com base na diversidade dos seus efeitos biológicos, a faixa espectral da radiação ultravioleta (UV, de 200 a 400 nm) é dividida em três regiões: UVC (de 200 a

280 nm), UVB (de 280 a 320 nm) e UVA (de 320 a 400 nm). A radiação UVC, por conta do elevado conteúdo energético dos seus fótons, é a mais danosa para os seres vivos, pois provoca a morte celular, em decorrência da lesão de moléculas imprescindíveis à sobrevivência das células, como os ácidos nucleicos e as proteínas.

5 Afortunadamente, a camada de ozônio (O3) que envolve a Terra absorve todo 0 UVC e uma fração do UVB presente na radiação solar que atinge a atmosfera terrestre.

A radiação UVB provoca efeitos biológicos benéficos, como a transformação do ergosterol epidérmico em vitamina D e 0 bronzeamento da pele, mas pode induzir a formação do eritema ou queimadura solar. Além disso, o UVB é capaz de provocar 10 radiolesões no DNA e reduzir ou suprimir a resposta imunológica da pele, aumentando as chances de malignização de células e a consequente elevação da incidência de câncer de pele.

A radiação UVA induz a pigmentação da pele, promovendo 0 bronzeamento e comumente não provoca eritema. Entretanto, pode desencadear o envelhecimento 15 precoce e também induzir 0 aparecimento do câncer da pele, podendo agir de maneira indireta através da formação de radicais livres e outros agentes oxidantes.

A pele humana é um órgão complexo e, por conta da sua localização corporal, é continuamente exposta a agentes físicos, químicos e biológicos, que podem contribuir para a manutenção ou provocar desequilíbrios na homeostase cutânea, desencadeando 20 respostas inflamatórias ou imunológicas que podem até resultar no desenvolvimento do câncer de pele.

Alguns desses agentes podem atuar através do chamado estresse oxidativo, decorrente da produção exagerada ou da deficiência de neutralização ou remoção de espécies químicas reativas de oxigênio (ERO) ou de nitrogênio (ERN) na pele.

25    O tecido cutâneo dispõe de um sistema antioxidante cuja finalidade é manter o

balanço redox na pele e evitar os efeitos deletérios causados pelo estresse oxidativo. Esse sistema atua por meio de reações enzimáticas, que catalisam a decomposição das espécies reativas ou a reparação de lesões moleculares, e não-enzimáticas, que previnem danos oxidativos por meio de interações diretas ou indiretas com as espécies químicas 30 reativas, levando à inativação das mesmas (Guaratini et al. Química Nova, 30(1), 206213,2007).

As principais enzimas que participam do sistema antioxidante da pele são a catalase (CAT), a superóxido dismutase (SOD) e a glutationa peroxidase (GPx),

As reações nâo-enzimáticas são mediadas por substâncias de baixo peso molecular, como as vitaminas E e C e os carotenoides, dentre outras, e a glutationa (GSH) que, além de atuar diretamente como antioxidante, participa como substrato nas reações catalisadas pela GPx. Substâncias da classe dos polifenóis, que podem ser 5 ingeridas através de uma dieta balanceada, também apresentam importante ação antioxidante.

A exposição à radiação ultravioleta de origem solar (UVA e UVB) é inevitável para os seres humanos. Por um lado, essa exposição é necessária e até recomendada, pois propicia efeitos benéficos à saúde humana, como a produção de vitamina D e a 10 pigmentação da pele, mas precisa ser controlada para evitar seus efeitos maléficos, como o eritema, o envelhecimento precoce e até o desenvolvimento de câncer da pele (Petkov et al. Radiation Environment Biophysics, 50(1), 219-229, 2011). Ao lado do controle dos horários adequados de exposição direta à luz solar, uma das alternativas mais seguras e recomendadas pela medicina para reduzir os efeitos de uma exposição 15 inevitável consiste no uso de protetores ou filtros solares.

Os protetores solares começaram a ser desenvolvidos em 1938, nos Estados Unidos da América, à base de emulsões de benzil salicilato e benzil cinamato. Em 1943, o ácido p-aminobenzoico (PABA) foi patenteado como filtro solar, dando sequência à descoberta e uso de vários derivados dessa substância. Inicialmente, os protetores 20 solares eram elaborados e comercializados visando à redução da exposição à faixa B (290 a 320 nm) do espectro da radiação ultravioleta (UVB). Posteriormente, outros compostos foram desenvolvidos com o intuito de oferecer proteção também contra a irradiação na faixa A (320 a 400 nm) da radiação ultravioleta (UVA) de origem solar. Vários produtos começaram então a ser comercializados por meio de combinações de 25 filtros UVA e UVB (Lowe, IN. Dermatologic Clinics, 24, 9-17, 2006).

A definição de fotoproteção biológica e a classificação de filtros ou protetores solares é variada e controversa. Pode-se dizer que uma substância, ou um produto, apresenta ação fotoprotetora quando impede, bloqueia ou atenua os efeitos biológicos danosos das radiações eletromagnéticas, especialmente das radiações UV, ou quando 30 promove a reversão desses efeitos. Essa ação protetora pode ser feita através de processos físicos ópticos, como a reflexão ou o espalhamento da radiação incidente, ou por processos fotoquímicos que envolvem a absorção direta dos fótons da radiação e subsequente transformação parcial da energia eletromagnética em calor, ou ainda por processos químicos que resultam na remoção ou neutralização de espécies químicas

reativas produzidas como decorrência da interação da radiação com substâncias presentes na estrutura biológica irradiada. Segundo esse conceito, os filtros ou protetores solares podem ser classificados como físicos, químicos ou físico-químicos. Levando em consideração a natureza química da substância utilizada, os filtros ou 5 protetores solares podem também ser classificados em orgânicos ou inorgânicos. Existem ainda mecanismos de fotoproteção biológica que envolvem a remoção de radiolesões e a restauração de moléculas importantes para a sobrevivência celular, como o ácido desoxirribonucleico (DNA), através de sistemas enzimáticos.

Os filtros ou protetores solares inorgânicos mais utilizados são o dióxido de 10 titânio (T1O2) e o óxido de zinco (ZnO), os quais são considerados protetores solares físicos, pois atuam através da reflexão ou o espalhamento da radiação incidente.

A maioria das substâncias utilizadas como protetores orgânicos atuam por meio de processos químicos ou físico-químicos. São representadas, principaimente, por um composto aromático conjugado a um grupo carbonila e um radical nas posições orlo ou 15 para, tais como 0 ácido p-aminob enzoico (PABA) ou as benzofenonas (Flor et al. Química Nova, 30(1), 153-158, 2007).

Dentre os princípios ativos orgânicos mais utilizados nas formulações de protetores solares de ação química estão os compostos químicos: benzofenona-3, octocrileno, ácido fenil-benzimidazol sulfônico, bis-etilexiloxifenol metoxifenil triazina, 20 octilmetoxicinamato, etil-hexil salicilato, octil salicilato, octil-dimetil-PABA, etil-hexil-metoxicinamato, butil-metoxi-dibenzoilmetano e homosalato.

Substâncias que apresentam atividade antioxidante ou sequestradora de radicais livres, como os flavonoides e os polifenois em geral, também apresentam importante atividade fotoprotetora, através do mecanismo de remoção ou neutralização de espécies 25 químicas reativas produzidas na estrutura biológica exposta à radiação UV, as quais podem desencadear respostas infiamatórias e imunológicas (González et al. Clinics in Dermatology, 26,614-626,2008).

O cuidado pessoal e a preocupação dos órgãos e instituições de saúde com os efeitos lesivos da radiação ambiental justificam o aumento da procura e do uso dos 30 protetores solares para a proteção da pele. Entretanto, o uso abusivo e indiscriminado desses produtos à base de filtros solares sintéticos está gerando consequências preocupantes, tanto em relação à saúde individual quanto à saúde pública e ambiental. Por serem lipofílicas, essas substâncias podem desencadear um processo de bioacumulação nos tecidos adiposos dos animais e no meio ambiente. A exemplo do

que ocorreu com alguns pesticidas, como o DDT, seis tipos de filtros solares orgânicos já foram detectados em peixes de um lago da Alemanha em concentrações de até 2 mg/kg. Além disso, esses compostos passaram a fazer parte também da formulação industriai de outros produtos cosméticos, como cremes de beleza, batons, loções para a pele e shampoos, e, recentemente, como aditivos em plásticos, carpetes, mobílias, roupas e sabão em pó; o que, certamente, incrementará a presença dos mesmos na biosfera. Um problema mais grave e preocupante, é que vários filtros solares orgânicos, como alguns derivados da benzofenona, do ácido para-aminobenzóico e do cinamato apresentam atividade endócrina estrogênica ou antiandrogênica em animais de experimentação ou culturas de células (Schlumpf et al. Environmental Health Perspectives. 109 (3), 238-244, 2001; Schlumpf et al. Toxicology, 205, 113-122, 2004). Nos Estados Unidos da América e em alguns países da Comunidade Européia, o uso do ácido para-aminobenzóico em protetores solares já está Sendo desaconselhado ou até mesmo proibido.

O uso abusivo e indiscriminado de filtros solares sintéticos e sua acumulação na biosfera podem, portanto, tomar-se um problema de saúde pública e ambiental. Uma solução para amenizar esse problema consistiria na substituição parcial de produtos sintéticos de biossegurança duvidosa por produtos naturais que também apresentem atividade fotoprotetora, mas que sejam facilmente biodegradáveis. Além disso, a utilização de produtos naturais é muito procurada no sentido de agregar valor comercial a uma grande variedade de produtos comerciais. A indústria cosmética e farmacêutica faz amplo uso de substâncias de origem animal e especialmente vegetal, seja na forma natural ou modificada de maneira dirigida para emprego cosmético, terapêutico ou de outra natureza.

A presente invenção propõe uma estratégia para reduzir a proporção de filtros solares sintéticos nas formulações de protetores solares através da substituição parcial dos mesmos por um produto natural originado de uma planta medicinal de uso tradicional bem documentado e sem registros de toxicidade.

As plantas medicinais são consideradas uma das mais atrativas e promissoras fontes de substâncias com potencialidades de uso cosmético (González et al. Clinics in Dermatoíogy, 26, 614-626, 2008) ou terapêutico (Calixto, J. B. Brazilían Journal of Medicai and Biological Ressearch, 33, 179-189, 2000), podendo funcionar também como “ferramentas” de estudos em pesquisas químicas ou farmacêuticas visando o desenvolvimento de princípios ativos, insumos ou coadjuvantes na fabricação de produtos de consumo nas áreas da cosmetologia, dermatologia e farmacêutica.

Desde o seu aparecimento na Terra, as plantas estão continuamente expostas à radiação ambiental, proveniente principalmente do Sol e, para sobreviverem, 5 desenvolveram mecanismos de defesa que, entre outras estratégias, envolvem a síntese e o armazenamento de compostos químicos capazes de absorver as radiações, especialmente aquelas do espectro ultravioleta, impedindo sua ação deletéria. Essas substâncias poderíam ser também utilizadas na fotoproteção dos animais, especialmente do ser humano, seja através do consumo alimentício ou por meio de aplicação tópica na 10 superfície corporal. Entretanto, quase não existem estudos e aplicações de produtos de origem vegetal como filtros solares naturais.

O uso racional de plantas medicinais como fornecedoras de princípios ativos, adjuvantes ou insumos, apresenta vantagens e benefícios, pois pode resultar na substituição de produtos sintéticos de biossegurança duvidosa e na agregação de valor a 15 produtos comercializados pela indústria farmacêutica e de cosméticos. Além disso, do ponto de vista ecológico e econômico, exige o manejo correto da cadeia de produção, podendo contribuir para a conservação da biodiversidade, através do incentivo e da promoção da coleta, caracterização e conservação in situ das espécies vegetais utilizadas.

20    Extratos vegetais constituem-se fontes abundantes de substâncias com atividade

antioxidante comprovada (Shao et al. International Journal of Biological Sciences, 4(1), 8-14, 2008), que podem contribuir para o restabelecimento do equilíbrio redox cutâneo ou para a prevenção de patologias causadas por estresse oxidativo. Plantas como Calendula officinalis, Polypodium leucotomos (Gomes et al, Brazilian Journal of 25 Medicai and Biological Research, 34; 1487-1494, 2001) e Pothomorphe umbellata (Ropke et al. Photochemistry and Photobiology, 78(5), 436-439, 2003; Ropke et al. Photochemistry and Photobiology, 82: 439-442, 2006) são utilizadas como fonte de antioxidantes, inclusive para prevenir ou amenizar efeitos danosos da radiação UV. O chá verde, obtido da planta Camellia sinensis, e o extrato de Ginkgo biloba (Kim, SJ. 30 Journal of Dermatology, 28, 193-199, 2001) são amplamente utilizados por conta de suas atividades anti-inflamatórias, imunomoduladoras e antioxidantes (Alexis et al. International Journal of Dermatology, 38, 735-743, 1999).