Nanoemulsão de lychnophora pinaster e seu uso

  • Número do pedido da patente:
  • BR 10 2012 009919 5 A2
  • Data do depósito:
  • 27/04/2012
  • Data da publicação:
  • 29/04/2014
Inventores:
  • Classificação:
  • A61K 8/97
    Cosm?ticos ou prepara??es similares para higiene pessoal; / caracterizado pela composi??o; / contendo materiais, ou derivados destes, de constitui??o desconhecida; / de origem vegetal, p. ex. extratos de plantas;
    ;
    A61Q 11/00
    Prepara??es para tratar os dentes, a cavidade oral ou dentaduras, p. ex. dentifr?cios ou pastas de dente; enxaguat?rios orais;
    ;
    A61K 8/06
    Cosm?ticos ou prepara??es similares para higiene pessoal; / caracterizado pela forma f?sica especial; / Dispers?es; Emuls?es; / Emuls?o;
    ;

NANOEMULSÃO DE Lychnophora pinaster E SEU USO. A presente invenção trata-se de uma nanoemulsão que compreende como principal componente extrato vegetal ou óleo essencial de Lychnophora pinaster e seu uso como composição odontológica. A nanoemulsão proposta pode ser utilizada em pacientes que fazem uso de aparelho ortodôntico fixo, pacientes que não fazem uso de nenhum aparelho ortodôntico e também por aqueles que utilizam aparelhos ortodônticos removíveis, por apresentar propriedades antimicrobianas contra micro-organismos presentes na cavidade bucal, especialmente contra Sreptococcus mutans, um dos principais agentes etiológicos da cárie e marcada ação sobre o biofilme formado por essa espécie. Além disso, a Lychnophora pinester apresenta atividade analgésica, anti-inflamatória, antiedematogênica, antinociceptiva, antitumoral, cicatrizante, entre outras, tornando-a ainda mais efetiva como enxaguatório bucal.

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NANOEMULSÃO DE Lychnophora pinaster E SEU USO Campo da Invenção

A presente invenção trata-se de uma nanoemulsão que compreende como principal componente extrato vegetal ou óleo essencial de Lychnophora 5 pinaster e seu uso como composição odontológica. A nanoemulsão de Lychnophora pinaster pode ser utilizada em pacientes que fazem uso de aparelho ortodôntico fixo, pacientes que não fazem uso de nenhum aparelho ortodôntico e também por aqueles que utilizam aparelhos ortodônticos removíveis, por apresentar propriedades antimicrobianas contra micro-10 organismos presentes na cavidade bucal, especialmente contra Streptococcus mutans, um dos principais agentes etiológicos da cárie e marcada ação sobre o biofilme formado por essa espécie. Além disso, a Lychnophora pinaster apresenta atividade analgésica, anti-inflamatória, antiedematogênica, antinociceptiva, antitumoral, cicatrizante, entre outras, o que a torna ainda mais 15 efetiva como enxaguatório bucal.

Fundamentos da Invenção Fitoterapia

A fitoterapia tem sido alvo de investigações científicas quanto ao uso, efeito e propriedades farmacológicas de plantas medicinais, tendo o seu 20 uso direcionado ao tratamento de diversas doenças (Grégio et al., 2006). Desde a década de 50, tem sido observado mundialmente um crescente interesse global no aproveitamento da biodiversidade, particularmente no que se refere às plantas medicinais, que têm sido utilizadas em várias áreas da

saúde como uma forma alternativa de tratamento e prevenção (Lewis e Elvin-Lewis, 1977).

De acordo com a FDA (2004), um produto natural, ou fitoterápico, deriva-se de uma ou várias plantas, algas, ou fungos macroscópicos. Um 5 fármaco derivado de produtos naturais é preparado a partir de matérias-primas botânicas, por um ou vários dos seguintes processos: pulverização, decocção, extração aquosa, extração etanólica, ou outro processo similar. Pode estar disponível em uma variedade de formas físicas, tais como pó, pasta, líquido concentrado, suco, goma, xarope, ou óleo, sendo que geralmente não inclui ío uma substância altamente purificada ou quimicamente modificada derivada das fontes naturais.

Fitoterápicos ricos em fenóis, chamados de polifenóis, que só existem no reino vegetal, onde exercem a nobre e valorosa função de defesa das plantas, apresentam um poderoso efeito antioxidante e uma marcada ação 15 antimicrobiana (Bakri e Douglas, 2005; Smullen et al., 2007; Ferrazzano et al., 2009; Sampaio et al., 2009; Koo et al., 2005; Duarte et al., 2006; Razak e Rahim, 2003; Nalina e Rahim 2007; Park et al., 1998; Koo et al., 2000; Castaldo e Capasso, 2002; Koo, et al., 2002; Duarte et al., 2003; Ooshima et al., 2000; Smullen et al., 2007; Ferrazzano et al., 2009).

20    Os compostos fenólicos das plantas se enquadram em diversas

categorias, como fenóis simples, ácidos fenólicos (derivados de ácidos benzóico e cinâmico), cumarinas, flavonóides, estilbenos, taninos condensados e hidrolisáveis, lignanas e ligninas (Naczk et al., 2004).Muitas plantas utilizadas

na medicina popular contem grande variedade de componentes fenólicos. Estes componentes, especialmente os flavonóides, atuam na limpeza de radicais livres e na inibição da peroxidação lipídica.

Os flavonóides são um grupo de ocorrência natural de compostos 5 fenólicos da planta (frutas, legumes, flores, folhas). Uma variedade de propriedades farmacológicas tem sido atribuída aos flavonóides, como anti-inflamatória, antiviral, antiespasmódica, antitumoral e antialergênica, as quais são sempre associadas com sua atividade antioxidante (Kanashiro et al., 2004). Flavonóides como a naringenina, flavona e flavonol, incluindo canferol, 10 morina e quercetina, constituem um amplo grupo de metabólitos secundários das plantas que apresentam atividade antibacteriana (Arima e Danno, 2002).

Dentre as espécies com potencial de uso farmacológico encontra-se a Lychnophora pinaster (Asteraceae), popularmente conhecida como arnica. Apesar da grande disponibilidade de informações a respeito da química e de 15 outras características de espécies do gênero, pouco é sabido a respeito de Lychnophora pinaster, espécie conhecida popularmente por arnica-mineira, arnica-da-serra, entre outros.

Possui como sinonímia Vernonia pinaster (Mart.) Less, Vernonia trichocarpa Spreng., Lychnophora trichocarpa (Spreng) Spreng., Piptopcoma 20 lychnophorioides Less., Lychnophora affins Gardn., Lychnophora brunoides var. affins (Gardner), Lychnophora rosmarinus Pohl. Ex. Schultz-Bip., Lychnophora rosmarinus var. rosmarinus Schultz-Bip., Lychnophora brunioides

var. pinifolia Baker, Lychnophora pumiio Pohl e Lychnophora piptocoma Schultz-Bip (Semir, 1991).

Essa espécie é encontrada nos campos rupestres, campos sujos e campos limpos de altitudes elevadas (altos de serras) na região de Cerrado do 5 Alto Rio Grande em Minas Gerais (Rodrigues, 1988). É encontrada também, em campos de canga, como os existentes na Serra do Rola Moça, na Serra Moeda e na Serra do Curral, e crescendo entre blocos de rochas ou alto de pequenos morros como nas Serra do Cipó, Serra do Caraça e Serra de Lavras, onde foi encontrada na Serrinha; em Itumirim, na Serra da Bocaina/Morro 10 Janela; em Carrancas, na Cachoeira da Fumaça e na Serra de Carrancas (Semir, 1991). Carvalho (1992) descreve o crescimento de arbustos nos campos rupestres da Serra da Bocaina sobre depressões rochosas com acúmulo de matéria orgânica.

Na triagem fitoquímica do extrato etanólico bruto das folhas e das flores 15 de Lychnophora pinaster, foi observada a presença de ácidos orgânicos, polissacarídeos, proteínas e aminoácidos, taninos, flavonóides, catequinas, lactonas sesquiterpênicas e outras lactonas, azulenos, esteróides e triterpenóides, depsídeos e depsidonas, derivados da cumarina, saponina espumídica (somente nas folhas), alcalóides, purinas e antraquinonas 20 (Pinheiro, 2002).

As folhas e flores da Lychnophora pinaster são intensamente utilizadas na medicina tradicional, na forma de extratos alcoólicos, infusões, banhos ou macerados em etanol e pomada, por possuir atividades analgésica, anti-

inflamatória, antiedematogênica, antinociceptiva e cicatrizante, no tratamento de contusões, reumatismo, feridas, coceira e picada de insetos (Bastos et al., 1987; Miguel et al., 199;, Almeida et al., 1998; Saúde et al., 1998; Duarte et al., 1999; Lopes, 2001; Souza, 2003; Azevedo, 2004; Silveira et al., 2005; Guzzo et 5 al., 2008; Abreu et al., 2011).

Seu uso na forma de cosmético, como sabonete, também é indicado, por eliminar asperezas e rachaduras na pele, além de suavizar hematomas e contusões (Almeida et al., 1998). Outros estudos farmacológicos mostram que essa espécie possui, além da atividade analgésica e anti-inflamatória (Bastos 10 et al., 1987; Miguel et al., 1996; Guzzo et al., 2008; Abreu et al., 2011), também atividade antitumoral (Kanashiro et al., 2004), tripanocida (Meyer et al., 1982; Duarte et al., 1999; Kanashiro et al., 2004; Alcântara et al., 2005, Silveira et al., 2005) e efeito antimicrobiano (Miguel et al., 1996; Abreu et al., 2011).

A atividade antimicrobiana da Lychnophora pinaster foi avaliada contra 15 Bacillus cereus, Listeria monocytogenes, Escherichia coli, Salmonella typhimuríum, Staphylococcus aureus e Citrobacter freundi. Foram avaliados extratos etanólicos, frações metanólicas e hexânicas da Lychnophora pinaster e foi verificado que as frações apoiares das folhas e dos caules e a a-amirina, que foi isolada dessas frações, apresentaram efeito contra o Staphylococcus 20 aureus em testes de disco difusão. Quanto ao teste de microdiluição, apenas a a-amirina e a mistura de a-amirina e lupeol demonstraram atividade, sendo a Concentração Inibitória Mínima (CIM) de 1.024 pg/mL (Abreu et al., 2011).

Ainda com relação ao Staphylococcus aureus, A CIM do ácido lichnofórico, foi de 30 jjg/mL e a do ácido acetil lichnofórico < 10 pg/mL (Miguel et al., 1996). Carioloaia

A doença cárie é um processo dinâmico, biofilme-açúcar 5 dependente, que ocorre devido à fermentação dos carboidratos e produção ácida no biofilme e que resulta em um distúrbio do equilíbrio entre o mineral do dente e o fluido do biofilme adjacente. Com o decorrer do tempo, o resultado é a perda mineral (Thylstrup e Fejerskov, 1999).

A desmineralização do esmalte é o primeiro passo para a instalação ío da cárie dental, doença de lenta progressão, sendo que o uso de fluoretos leva a alterações da cárie incipiente, que passa a se apresentar como lesão de mancha branca sem presença de cavidade (Verdonschot et al., 1999). Clinicamente, a cárie pode se apresentar de várias formas, desde opacidades no esmalte, difíceis de serem discernidas, até grandes cavidades que se 15 estendem até a polpa dental.

No entanto, a superfície de esmalte com lesão de cárie tem possibilidade de remineralização quando em estágio inicial e isto enfatiza a necessidade do aperfeiçoamento de métodos preventivos que possam agir como coadjuvantes na prevenção e controle da cárie (Lussi et al., 1999).

20    Streptococcus mutans encontra-se amplamente distribuído não

apenas em populações com moderada ou alta prevalência de cárie, mas também nas populações com baixa ou nenhuma experiência desta (Napimoga et al., 2004). É uma das bactérias mais representativas da microbiota oral e um

importante patógeno relacionado com a cárie dental (Hamada e Slade, 1980; Loesche, 1986; Tanzeret al., 2001).

Ele é acidúrico, acidogênico e não só fermenta a sacarose como, a partir unicamente desta, sintetiza glucanos, solúveis e insolúveis 5 (polissacarídeos), através das enzimas extracelulares glicosiltransferases (Hamada et al., 1981; Fujiwara, 1996; Colby e Russell, 1997; Banas e Vickerman, 2003), o que contribui para a formação do biofilme dentáriio, que tem sido amplamente estudado por sua relação direta com a doença cárie (Gibbons e van Houte, 1975; Paes Leme et al., 2006; Ccahuana-Vásquez et al., 10    2007; Vale et al., 2007) e inflamação gengival (gengivite).

Além disso, a presença de uma dieta rica em teores de sacarose promove um aumento da proporção de estreptococos do grupo mutans, uma vez que estes micro-organismos apresentam algumas vantagens ecológicas quando da presença deste açúcar no meio bucal, permitindo a sua aderência, 15 colonização e posterior acúmulo na superfície lisa do esmalte dental (Dennis et al., 1975; Staat et al., 1975; Hamada e Slade, 1980; Loesche, 1986; Bradshaw et al., 1989; Bradshaw e Marsh, 1998).

Dentre os carboidratos da dieta, a sacarose é considerada como o mais cariogênico (Cury et al., 2000; Paes Leme et al., 2006), pois além de ser 20 fermentada a ácidos, reduzindo o pH do biofilme dental, é substrato para a síntese de polissacarídeos extracelulares insolúveis (PECI) e solúveis (PECS) por meio de três glicosiltransferases: GTFB, GTFC e GTFD (Rõlla et al., 1985; Hamada e Slade, 1980; Cury et al., 2000; Bowen et al., 2002).

Além de promoverem a aderência microbiana à superfície dental (Loesche, 1986; Rõlla, 1989; Paes Leme et al., 2006), os PECI promovem modificações estruturais no biofilme dental, tornando-o mais poroso. Essa maior porosidade ao biofilme formado permite a penetração de substratos 5 acidogêniços para as camadas mais internas do biofilme e, conseqüentemente facilitando a difusão de substratos ácidos para a superfície dental (Zero et al., 1986; Dibdin e Shellis, 1988; Zero et al., 1992).

A fermentação de carboidratos, especialmente a sacarose, pelas bactérias do biofilme faz com que haja um aumento na concentração de lactato 10 (Geddes, 1975; Bradshaw et al., 1989), reduzindo o pH do meio (Bowen et al., 1966; Bradshaw et al., 1989; Bradshaw e Marsh, 1998). Essas quedas de pH no biofilme dental são consideradas como um dos principais estresses aos quais os micro-organismos orais estão expostos (Lemos et al., 2005), podendo alterar a homeostasia microbiana do biofilme, o crescimento e a sobrevivência 15 dos micro-organismos (Marsh, 1994; Bowden e Hamilton, 1998; Marsh, 2003; Lemos et al., 2005).

A alteração da homeostasia microbiana do biofilme dental ocasionada pela queda de pH (Marsh, 1994; Lemos et al., 2005), pode promover seleção microbiana (Marsh, 2003; Paddick et al., 2003), selecionando 20 micro-organismos com maior habilidade em responder às alterações nas , condições ambientais (Bradshaw et al., 1989; Bradshaw e Marsh, 1998), o que leva a formação de um biofilme mais cariogênico pela seleção de bactérias como os Streptococcus mutans, que sobrevivem e predominam em um meio

ácido (Bradshaw et al., 1989; Bradshaw e Marsh, 1998; Li et al., 2001; Marsh, 2003; Welin-Neislands e Svensãter, 2007). Em adição, o uso repetido de alguns agentes antimicrobianos no biofilme também pode selecionar microorganismos resistentes (Alviano et al., 2005).

5    Além disso, o comportamento de micro-organismos aderidos a

superfícies pode ser diferente quando comparado ao comportamento destes como célula planctônica. Alguns trabalhos têm demonstrado que a expressão proteica e gênica de Streptococcus mutans em biofilmes é diferente em relação à expressão em culturas planctônicas (Marsh, 2004; Shemesh et al., 2007). ío Sabe-se que as bactérias que crescem no formato de biofilme expressam propriedades distintas das células planctônicas e estão preparadas para experimentar algum tipo de restrição de nutrientes. Vem sendo sugerido que esta limitação fisiológica pode esclarecer a resistência dos biofilmes aos agentes antimicrobianos (Mah e 0’Tolle, 2001; Dunne, 2002; Marsh, 2003; 15 Alviano et al., 2005).

De acordo com Clarkson e McLoughlin (2000), apesar dos avanços acerca da prevenção e do controle da cárie dental, essa condição ainda é considerada um problema de saúde pública, que afeta muitos países do mundo. Apesar do amplo uso de compostos fluoretados, a cárie ainda se 20 manifesta em determinados indivíduos ou grupos de indivíduos, seguindo uma polarização da cárie , sendo que apenas 15% dos jovens de 17 anos de idade apresentam-se livres de cárie.

O controle mecânico representa o método mais valioso utilizado na prevenção e remoção do biofilme e consiste na escovação e no uso do fio dental. Porém nem sempre é realizado adequadamente e por outro lado, a escovação, mesmo associada ao uso de dentifrícios fluoretados convencionais 5    (0,2 % de fluoreto de sódio) e fio dental, nem sempre é suficiente para a

eliminação total do biofilme (Monfrin e Ribeiro, 2000).

O fato de desorganizar o biofilme periodicamente já diminui seu potencial patogênico e aperfeiçoa o efeito do flúor (Cury, 1992). Se a higiene bucal fosse perfeita, o uso de flúor seria desnecessário (Rolla et al., 1991; ío Cury, 2001), porém, considerando que essa higiene é muito difícil de ser obtida em termos populacionais, o uso de flúor deve ser enfatizado, para que haja um efeito sinérgico (Rolla et al., 1991; Cury, 1992).

De acordo com Cury (2001), a eficácia do flúor é maior quanto menor a perda mineral. Dessa forma, a eficiência assenta-se na regularidade 15 de escovação, uma vez que o flúor interfere na dinâmica do processo cariogênico. Assim, ao mesmo tempo em que o biofilme é desorganizado periodicamente, diminuindo seu potencial cariogênico, o flúor ajuda a saliva a repor minerais perdidos do dente. A escolha da estratégia de tratamento para controlar a progressão da doença cárie obviamente depende da atividade da 20 doença do paciente.