EMENTA PENAL E PROCESSO PENAL. RECURSO ESPECIAL. ROUBO. COMPENSAÇÃO DA AGRAVANTE DA REINCIDÊNCIA COM A ATENUANTE DA CONFISSÃO ESPONTÂNEA. RÉU MULTIRREINCIDENTE. NÃO CABIMENTO. PRECEDENTES. RECURSO PROVIDO. DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO com fundamento na alínea "a" do permissivo constitucional, contra acórdão do Tribunal de Justiça daquele Estado da Federação, assim ementado (fl. 280/283): APELAÇÃO CRIMINAL – PENAL E PROCESSUAL PENAL – ROUBO DUPLAMENTE CIRCUNSTANCIADO PELO EMPREGO DE ARMA DE FOGO E PELO CONCURSO DE AGENTES, ALÉM DO PORTE DE ARMA DE FOGO DE USO RESTRITO COM NUMERAÇÃO DE SÉRIE SUPRIMIDA – EPISÓDIO OCORRIDO NO BAIRRO DE BOTAFOGO, COMARCA DA CAPITAL – AGENTE QUE, NA COMPANHIA DE UM INDIVÍDUO NÃO IDENTIFICADO, SUBTRAIU, MEDIANTE O EMPREGO DE GRAVE AMEAÇA EXERCIDA COM O MANEJO DE ARMA DE FOGO, 02 (DOIS) ANÉIS, 02 (UMA) PULSEIRA, 01 (UM) CORDÃO DE OURO, 01(UM) APARELHO DE TELEFONIA CELULAR DA MARCA LG, COR CINZA, ALÉM DE UMA MOTOCICLETA DA MARCA HONDA, MODELO HORNET CB 600 CC, BENS PERTENCENTES À VÍTIMA MARCELO – MECÂNICA DELITIVA QUE SE INICIOU QUANDO MARCELO SE APROXIMAVA DE SUA MOTOCICLETA, EM COMPANHIA DE SUA PRÓPRIA NAMORADA, QUANDO CARLOS HENRIQUE, OSTENTANDO A ARMA DE FOGO, ANUNCIOU O ROUBO, SUBTRAINDO OS BENS E DETERMINANDO QUE O CASAL SE AFASTASSE DA MOTOCICLETA, SENDO CERTO QUE ENQUANTO AQUELE EFETUAVA A SUBTRAÇÃO, SEU COMPARSA O AGUARDAVA SOBRE OUTRA MOTOCICLETA, DANDO COBERTURA À AÇÃO CRIMINOSA E VIGIANDO A APROXIMAÇÃO DE TRANSEUNTES, VINDO A SE AFASTAR DO LOCAL APENAS DEPOIS QUE A VÍTIMA FOI DESPOJADA DE SEUS BENS E DALI SE DISTANCIOU – NO ENTANTO, APÓS SE CERTIFICAR QUE SUA NAMORADA SE ENCONTRAVA EM SEGURANÇA, O ESPOLIADO RETORNOU AO LOCAL DOS FATOS E CONSTATOU QUE O RAPINADOR SE OCUPAVA EM COLOCAR O CAPACETE, O QUE POSSIBILITOU QUE A VÍTIMA SE ATIRASSE SOBRE AQUELE, INICIANDO UMA LUTA CORPORAL, DURANTE A QUAL MARCELO DESARMOU CARLOS HENRIQUE E O IMOBILIZOU, ATÉ A CHEGADA DE POLICIAIS MILITARES, QUE EFETUARAM A PRISÃO, SENDO DE SE NOTAR QUE HOUVE A RECUPERAÇÃO PARCIAL DOS BENS RAPINADOS, EXCETUANDO-SE UM DOS ANÉIS DA VÍTIMA – IMPUTAÇÃO QUE AINDA ESTABELECE, DE FORMA AUTÔNOMA, QUE O IMPLICADO “PORTAVA ARMA DE FOGO MUNICIADA, COM NUMERAÇÃO DE SÉRIE RASPADA, QUAL SEJA, UMA PISTOLA DA MARCA TAURUS, CALIBRE 40” – SENTENÇA QUE RECONHECEU A PRÁTICA DO DELITO PATRIMONIAL VIOLENTO, DECRETANDO A ABSOLVIÇÃO PELO PORTE DE ARMA DE FOGO COM NUMERAÇÃO SUPRIMIDA, POR ATIPICIDADE DA CONDUTA, DECISUM ESTE QUE EXPERIMENTOU A IRRESIGNAÇÃO DE AMBAS AS PARTES, TENDO O PARQUET PLEITEADO A MAJORAÇÃO DA FRAÇÃO DE AUMENTO CORRESPONDENTE AO RECONHECIMENTO DA DÚPLICE CIRCUNSTANCIAÇÃO DO ROUBO, ENQUANTO QUE A DEFESA REQUEREU A COMPENSAÇÃO DA ATENUANTE DA CONFISSÃO COM A AGRAVANTE GENÉRICA DA REINCIDÊNCIA, BEM COMO O DESCARTE DA MAJORANTE DO CONCURSO DE AGENTES, QUE REPUTA COMO TENDO RESULTADO INCOMPROVADA – IMPROCEDÊNCIA DA PRETENSÃO RECURSAL MINISTERIAL E PROCEDÊNCIA DAQUELA DEFENSIVA – CONTINGENTE PROBATÓRIO QUE SE MOSTROU FIRME E APTO A COMPROVAR A PRÁTICA DA SUBTRAÇÃO VIOLENTA, PELO RECORRENTE, QUEM SE UTILIZOU PARA TANTO DE UMA ARMA DE FOGO, A QUAL FOI APREENDIDA E DEVIDAMENTE SUBMETIDA À PERÍCIA TÉCNICA, TENDO SIDO ATESTADA A SUA CAPACIDADE DE PRODUZIR DISPAROS – DECLARAÇÕES JUDICIAIS APRESENTADAS PELA VÍTIMA MARCELO, E PELA NAMORADA DESTE, QUE SUSTENTAM TAL PARCELA DOS FATOS, MAS NÃO SE MOSTRAM APTAS A ESTABELECER, COM A NECESSÁRIA CERTEZA, A PRESENÇA DE UM SEGUNDO RAPINADOR, NOTADAMENTE QUANDO SE VERIFICA QUE A VÍTIMA ENTROU EM LUTA CORPORAL COM O RECORRENTE, QUEM SE ENCONTRAVA SOZINHO LOGO APÓS A SUBTRAÇÃO, DE MODO QUE, SE HAVIA UMA TERCEIRA PESSOA NO LOCAL, NADA APONTA PARA O FATO DE QUE ESTA BUSCOU CONCORRER PARA O SUCESSO DA EMPREITADA CRIMINOSA – CONSUMAÇÃO DO DELITO QUE RESTOU CRISTALIZADA DIANTE DA DEFINITIVA PERDA DE UM DE SEUS ANÉIS, EXPERIMENTADA POR MARCELO – DOSIMETRIA QUE DESAFIA AJUSTES A PARTIR DA CONFIGURAÇÃO DA CONFLITUOSA COEXISTÊNCIA ENTRE A CIRCUNSTÂNCIA LEGAL DA ATENUANTE GENÉRICA DA CONFISSÃO SOBRE A AGRAVANTE DA REINCIDÊNCIA, ALIÁS, AQUI ESPECÍFICA E SENTENCIALMENTE RECONHECIDA COMO SENDO ÚNICA, MUITO EMBORA SE VERIFIQUE A PRESENÇA DE DÚPLICE ANOTAÇÃO QUE SE CREDENCIASSE A TANTO, MAS O QUE NÃO PODE SER MODIFICADO NESTA SEDE PROCESSUAL E À MÍNGUA DE PLEITO MINISTERIAL NESTE SENTIDO, PENA DE SE CONFIGURAR A PROSCRITA REFORMATIO IN PEJUS , HAVENDO, DIANTE DE TAL CENÁRIO, DE SE APLICAR COMO MELHOR SOLUÇÃO A COMPENSAÇÃO ENTRE AMBOS OS VETORES DOSIMÉTRICOS, SEGUNDO O TEOR DE REGRAS DE HERMENÊUTICA PENAL ORIENTADORAS DAQUELA CONVICÇÃO RESOLUTIVA – PRECEDENTES JURISPRUDENCIAIS – MANUTENÇÃO DA ORIGINÁRIA E MÍNIMA FRAÇÃO DE AUMENTO DA PENA, CORRESPONDENTE AGORA AO RECONHECIMENTO TÃO SOMENTE DA MAJORANTE DO EMPREGO DA ARMA DE FOGO, QUE É DE 1/3 (UM TERÇO), INEXISTINDO QUALQUER CONCRETA MOTIVAÇÃO AO ACOLHIMENTO DO PLEITO MINISTERIAL DE RECRUDESCIMENTO DAQUELE GRAU DE ACRÉSCIMO DA SANÇÃO – PERPETUAÇÃO DO REGIME PRISIONAL FECHADO, QUE SE MOSTRA O ADEQUADO A QUEM É REINCIDENTE, INCLUSIVE, ESPECÍFICO – DESPROVIMENTO DO RECURSO MINISTERIAL E PROVIMENTO DAQUELE DEFENSIVO. Nas razões do apelo especial, aponta o recorrente violação ao disposto nos artigos 61, I, e 63 do Código Penal, ao argumento de que "havendo dupla, tripla, etc. reincidência apenas e tão somente 1 (uma) deve ser compensada com a confissão, sendo as demais valoradas como agravante genérica" (fl. 338). Requer, ao final, o provimento do recurso para que "seja restabelecida a dupla reincidência do recorrido" (fl. 343). Apresentas as contrarrazões e admitido o recurso, manifestou-se o Parquet pelo provimento do recurso especial. É o relatório. Insurge-se o recorrente contra acórdão que efetuou a compensação da agravante da reincidência com a atenuante da confissão espontânea sob a seguinte fundamentação (fl. 285): Na fase intermediária da dosagem e muito embora se tenham por presentes na folha penal do Recorrente (fls. 93/98) duas anotações que se credenciam a se configurar como agravante genérica da reincidência, inclusive específica, constata-se que o Sentenciante se referiu neste análogo momento da Sentença, à existência de “reincidência”, estabelecendo assim a presença da singularidade desta, o que não pode ser ora ajustado, à míngua de irresignação ministerial neste sentido e pena de se configurar a proscrita reformatio in pejus . Nesta esteira, tem-se a coexistência entre a circunstância legal de agravamento da reincidência (art. 61, inc. nº I do C.P.), específica, in casu , e a atenuante da confissão (art. 65, inc. nº III, “d” do C.P.). Muito embora repute como melhor entendimento aquele no qual se considera que a circunstância mais subjetiva prepondera sobre a mais objetiva, ou seja, a confissão sobre a reincidência, no ca- so vertente, estamos diante de uma reincidência específica, a conduzir para uma compensação entre estes dois vetores dosimétricos. Firmou-se nesta Corte entendimento no sentido de que "a multireincidência exige maior reprovação do que aquela conduta perpetrada por quem ostenta a condição de reincidente por força, apenas, de um único evento isolado em sua vida, devendo, pois, prevalecer sobre a confissão" (HC 111.516/MS, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 02/06/2015, DJe 12/06/2015). No mesmo sentido, segue recente julgado deste Sodalício: CONSTITUCIONAL. PENAL. HABEAS CORPUS IMPETRADO EM SUBSTITUIÇÃO A RECURSO PRÓPRIO. ROUBO DUPLAMENTE CIRCUNSTANCIADO (POR DUAS VEZES). CRIME ÚNICO. IMPOSSIBILIDADE. VIOLAÇÃO DE PATRIMÔNIOS DISTINTOS. CONCURSO FORMAL CONFIGURADO. COMPENSAÇÃO ENTRE A AGRAVANTE DA REINCIDÊNCIA COM A ATENUANTE DA CONFISSÃO ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. RÉU MULTIRREINCIDENTE. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. 01. Prescreve a Constituição da República que o habeas corpus será concedido "sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder" (art. 5º, inc. LXVIII). O Código de Processo Penal impõe aos juízes e aos tribunais que expeçam, "de ofício, ordem de habeas corpus, quando, no curso de processo, verificarem que alguém sofre ou está na iminência de sofrer coação ilegal" (art. 654, § 2º). Desses preceptivos infere-se que no habeas corpus devem ser conhecidas quaisquer questões de fato e de direito relacionadas a constrangimento ou ameaça de constrangimento à liberdade individual de locomoção. Por isso, ainda que substitutivo do recurso expressamente previsto para a hipótese, é imprescindível o seu processamento para perquirir a existência de "ilegalidade ou abuso de poder" no ato judicial impugnado (STF, HC 121.537, Rel. Ministro Marco Aurélio, Primeira Turma; HC 111.670, Rel. Ministra Cármen Lúcia, Segunda Turma; STJ, HC 277.152, Rel. Ministro Jorge Mussi, Quinta Turma; HC 275.352, Rel. Ministra Maria Thereza de Assis Moura, Sexta Turma). 02. De ordinário, "a prática do crime de roubo mediante uma só ação, mas contra vítimas distintas, enseja o reconhecimento do concurso formal, e não de crime único" (RHC 51.561/MG, Rel. Ministro Jorge Mussi, Quinta Turma, julgado em 02/10/2014; HC 185.744/ES, Rel. Ministro Gurgel de Faria, Quinta Turma, julgado em 18/12/2014; HC 255.972/MG, Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 18/09/2014). 03. Conforme precedentes do Superior Tribunal de Justiça, "reconhecida a multirreincidência específica, não se mostra possível promover a compensação integral e exata entre a confissão e a reincidência" (AgRg nos EDcl no REsp 1.387.261/SP, Rel. Ministro Marco Aurélio Bellizze, Quinta Turma, julgado em 05/11/2013; HC 287.362/SP, Rel. Ministra Laurita Vaz, Quinta Turma, julgado em 19/08/2014; AgRg no REsp 1.475.943/RO, Rel. Ministro Nefi Cordeiro, Sexta Turma, julgado em 12/02/2015). 04. Habeas corpus não conhecido. (HC 321.701/SC, Rel. Ministro NEWTON TRISOTTO (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/SC), QUINTA TURMA, julgado em 11/06/2015, DJe 18/06/2015) Vale ressaltar que a simples menção ao termo "reincidência" não determina a singularidade desta, mesmo porque o magistrado de primeiro grau, ao efetuar a dosimetria da pena, mencionou expressamente a existência de duas condenações anteriores. Dessa forma, havendo duas condenações anteriores, com trânsito em julgado, pelo crime de roubo, não é possível a compensação entre a agravante da reincidência e a atenuante da confissão espontânea. Em razão disso, refaço a dosimetria da pena. Na primeira fase da dosimetria da pena, fixo a pena-base no mínimo legal, ou seja, 4 anos de reclusão e 10 dias-multa. Na segunda fase, considerando a confissão espontânea e a dupla reincidência, aumento a pena em 1 ano de reclusão e 2 dias-multa, conforme sentença condenatória. Na terceira fase, por incidir a causa de aumento referente ao emprego de arma de fogo, majoro a reprimenda em 1/3, tornando a pena definitiva em 6 anos e 8 meses de reclusão, além de 16 dias-multa, mantido, no mais, o acórdão impugnado. Do exposto resulta que o acórdão recorrido está em sentido contrário à jurisprudência desta Corte Superior de Justiça acerca do tema, cabendo a esta relatora dar provimento ao recurso nos termos do enunciado nº 568 da Súmula desta Corte, verbis : "O relator, monocraticamente e no Superior Tribunal de Justiça, poderá dar ou negar provimento ao recurso quando houver entendimento dominante acerca do tema". Ante o exposto, com fundamento no artigo 932, inciso V, alínea 'a' do novo Código de Processo Civil, c.c art. 3º Código de Processo Penal, dou provimento ao recurso especial para, afastada a compensação da confissão espontânea com a dupla reincidência, fixar a pena do recorrido em 6 anos e 8 meses de reclusão, além de 16 dias-multa, mantido, no mais, o acórdão impugnado. Publique-se. Intime-se. Brasília, 1º de junho de 2016. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA Relatora