Supremo Tribunal Federal 23/09/2019 | STF

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1. Ato administrativo eivado de inconstitucionalidade, como aquele
que confere investidura, sem prévio concurso público, a substituto de
serventia delegada, cuja vacância se operou após a vigência da Carta
Republicana de 1988, não se convalida pelo decurso do tempo, não se
sujeitando à prescrição qüinqüenal ou à decadência administrativa, previstas
em disposições normativas infraconstitucionais.

2. Exegese expressada no aresto rescindendo que se mostra,
ademais, plenamente de acordo com a atual e sedimentada jurisprudência
dos Tribunais Superiores.

AÇÃO RESCISÓRIA JULGADA IMPROCEDENTE

A parte ora agravante, ao deduzir o apelo extremo em questão,
sustentou que o Tribunal “a quo” teria transgredido preceitos inscritos na
Constituição da República.

Cumpre ter presente que a pretensão recursal extraordinária é
desautorizada
pela orientação que o Plenário do Supremo Tribunal Federal
firmou na matéria em referência, em precedentes cujo teor ressalta, na linha
de consistente diretriz jurisprudencial (
RTJ 167/748, Rel. Min. MAURÍCIO
CORRÊA –
ADI 363/DF, Rel. Min. SYDNEY SANCHES – ADI 1.573/SC, Rel.
Min. SYDNEY SANCHES,
v.g.), que se revela imprescindível a realização de
concurso público de provas
e títulos, para efeito de ingresso na atividade
notarial e de registro,
consoante prescreve, em caráter impositivo, a
Constituição da República (art. 236, § 3º).

Com efeito, esta Suprema Corte, ao julgar o MS 28.279/DF, Rel.
Min. ELLEN GRACIE,
que versou matéria idêntica à veiculada no caso em
exame,
fixou entendimento que se mostra incompatível com a pretensão de
direito material deduzida pela parte ora recorrente:

MANDADO DE SEGURANÇA. ATIVIDADE NOTARIAL E DE
REGISTRO
. INGRESSO. CONCURSO PÚBLICO. EXIGÊNCIA. ARTIGO
236
, PARÁGRAFO 3º, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. NORMA AUTO-
APLICÁVEL
. DECADÊNCIA PREVISTA NO ARTIGO 54 DA LEI 9.784/1999.
INAPLICABILIDADE A SITUAÇÕES INCONSTITUCIONAIS. PREVALÊNCIA
DOS PRINCÍPIOS REPUBLICANOS DA IGUALDADE
, DA MORALIDADE E
DA IMPESSOALIDADE
. SUBSTITUTO EFETIVADO COMO TITULAR DE
SERVENTIA APÓS A PROMULGAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL
.
IMPOSSIBILIDADE. ORDEM DENEGADA.

1. O art. 236, § 3º, da Constituição Federal é norma auto-
aplicável
.

2. Nos termos da Constituição Federal, sempre se fez necessária
a submissão
a concurso público para o devido provimento de serventias
extrajudiciais eventualmente vagas ou para fins de remoção.

3. Rejeição da tese de que somente com a edição da Lei
8.935/1994
teria essa norma constitucional se tornado auto-aplicável.

4. Existência de jurisprudência antiga e pacífica do Supremo
Tribunal Federal
no sentido da indispensabilidade de concurso público
nesses casos (Ações Diretas de Inconstitucionalidade 126/RO, rel. Min.
Octavio Gallotti, Plenário, DJ 05.6.1992; 363/DF, 552/RJ e 690/GO, rel. Min.
Sydney Sanches, Plenário, DJ 03.5.1996 e 25.8.1995; 417/ES, rel. Min.
Maurício Corrêa, Plenário, DJ 05.5.1998; 3.978/SC, rel. Min. Eros Grau,
Plenário, DJe 29.10.2009).

5. Situações flagrantemente inconstitucionais como o
provimento de serventia extrajudicial sem a devida submissão a
concurso público não podem e não devem ser superadas
pela simples
incidência do que dispõe o art. 54 da Lei 9.784/1999,
sob pena de subversão
das determinações insertas na Constituição Federal.

6. Existência de jurisprudência consolidada da Suprema Corte
no sentido de que não
há direito adquirido à efetivação de substituto no
cargo vago de titular de serventia,
com base no art. 208 da Constituição
pretérita,
na redação atribuída pela Emenda Constitucional 22/1983, quando
a vacância da serventia se der já na vigência da Constituição de 1988
(Recursos Extraordinários 182.641/SP, rel. Min. Octavio Gallotti, Primeira
Turma, DJ 15.3.1996; 191.794/RS, rel. Min. Maurício Corrêa, Segunda Turma,
DJ 06.3.1998; 252.313-AgR/SP, rel. Min. Cezar Peluso, Primeira Turma, DJ
02.6.2006; 302.739-AgR/RS, rel. Min. Nelson Jobim, Segunda Turma, DJ
26.4.2002; 335.286/SC, rel. Min. Carlos Britto, DJ 15.6.2004; 378.347/MG, rel.
Min. Cezar Peluso, DJ 29.4.2005; 383.408-AgR/MG, rel. Min. Ellen Gracie,
Segunda Turma, DJ 19.12.2003; 413.082-AgR/SP, rel. Min. Eros Grau,
Segunda Turma, DJ 05.5.2006; e 566.314/GO, rel. Min. Cármen Lúcia, DJe
19.12.2007;
Agravo de Instrumento 654.228-AgR/MG, rel. Min. Gilmar
Mendes
, Segunda Turma, DJe 18.4.2008).

7. Reafirmada a inexistência de direito adquirido de substituto que
preenchera os requisitos do art. 208 da Carta pretérita à investidura na
titularidade de Cartório, quando a vaga tenha surgido
após a promulgação
da Constituição de 1988, pois esta, no seu art. 236, § 3º, exige
expressamente a realização de concurso público de provas e títulos para o
ingresso
na atividade notarial e de registro.

8. Os princípios republicanos da igualdade, da moralidade e da
impessoalidade devem nortear a ascensão às funções públicas.

9. Segurança denegada.” (grifei)

Esse entendimento, na realidade, como precedentemente
salientado, nada mais reflete senão a própria orientação resultante de
diretriz jurisprudencial que esta Corte Suprema
firmou na matéria, ainda
mais se se tratar
, como na espécie, tal como enfatizado pelo acórdão
recorrido,
de vacância registrada sob a égide do vigente estatuto
fundamental
, independentemente de o interessado estar exercendo, como

titular ou substituto, as atribuições inerentes à Serventia (AI 376.705/SC, Rel.
Min. CARLOS VELLOSO –
AI 541.408-AgR/MG, Rel. Min. RICARDO
LEWANDOWSKI –
AI 654.228-AgR/MG, Rel. Min. GILMAR MENDESRE
230.585/GO
, Rel. Min. MOREIRA ALVES – RE 244.574/RS, Rel. Min.
CARLOS VELLOSO –
RE 302.739-AgR/RS, Rel. Min. NELSON JOBIM – RE
335.286/SC
, Rel. Min. AYRES BRITTO – RE 383.408/MG, Rel. Min. ELLEN
GRACIE –
RE 597.416-AgR/PR, Rel. Min. EROS GRAU – RE 635.376/GO,
Rel. Min. CELSO DE MELLO,
v.g.):

AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM
AGRAVO. ADMINISTRATIVO. SUBSTITUTO DE TITULAR DE SERVENTIA
EXTRAJUDICIAL. VACÂNCIA DA SERVENTIA APÓS A PROMULGAÇÃO DA
CONSTITUIÇÃO DE 1988. EFETIVAÇÃO NO CARGO. IMPOSSIBILIDADE.
INEXISTÊNCIA DE DIREITO ADQUIRIDO. ARTIGO 236, PARÁGRAFO 3º,
DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. NORMA AUTO-APLICÁVEL.
ENTENDIMENTO FIRMADO NO ACÓRDÃO PROFERIDO PELO PLENÁRIO
DO STF NO JULGAMENTO DO MS 28.279. JURISPRUDÊNCIA
CONSOLIDADA DESTA SUPREMA CORTE. PRECEDENTES DO PLENÁRIO
E DE AMBAS AS TURMAS DO STF. MULTA DO ARTIGO 557, § 2º, DO CPC/
1973. APLICABILIDADE. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.

(ARE 862.156-AgR/DF, Rel. Min. LUIZ FUX)

Impende destacar, ainda, precedente deste Supremo Tribunal
Federal
que resultou do julgamento da ADI 3.978/SC, Rel. Min. EROS
GRAU,
no qual se acentuou que a outorga de delegação registral ou
notarial, para legitimar-se constitucionalmente, supõe a prévia aprovação em
concurso público de provas e títulos,
por tratar-se de regra constitucional que
decorre
do texto fundado no art. 236, § 3º, da Constituição da República –
ou seja, entendeu-se, em referida decisão, que, sem prévia aprovação em
concurso público
, torna-se ilegítimo o ato de investidura:

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. IMPUGNAÇÃO
DO DISPOSTO NOS ARTIGOS 19
, 20 E 21 DA LEI N. 14.083 DO ESTADO
DE SANTA CATARINA
. REGRAS GERAIS CONCERNENTES AOS
CONCURSOS PÚBLICOS PARA INGRESSO E REMOÇÃO NA ATIVIDADE
NOTARIAL E DE REGISTRO
. VIOLAÇÃO DO DISPOSTO NO ARTIGO 37,
INCISO II, E NO ARTIGO 236, § 3º, DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL.

1. Os preceitos da Lei n. 14.083 de Santa Catarina violam o
disposto no artigo 236 da Constituição de 1988, que estabelece que o
ingresso nas atividades notarial e de registro será efetuado por meio de
concurso público de provas e títulos.

2. O artigo 21 da Lei n. 14.083 permitiria que os substitutos das
serventias extrajudiciais nomeados até 21 de novembro de 1994 fossem
elevados à condição de titular, sem aprovação em concurso.

3. Esta Corte tem entendido que atos normativos concernentes
ao provimento de cargos mediante a elevação de substitutos à titularidade
dos cartórios, sem a devida aprovação em concurso público afrontam a
Constituição do Brasil. Precedentes – artigo 37, inciso II, e artigo 236, § 3º, da
Constituição do Brasil.

4. Os artigos 20 e 21 da Lei n. 14.083 violam o texto da
Constituição de 1.988
. Ato normativo estadual não pode subverter o
procedimento de acesso aos cargos notariais, que, nos termos do disposto na
Constituição do Brasil, dar-se-á por meio de concurso público.

5. A inconstitucionalidade dos artigos 20 e 21 impõe a
procedência
do pedido no tocante ao artigo 19.

6. O provimento de cargos públicos mediante concursos visa a
materializar princípios constitucionais
aos quais está sujeita a
Administração, qual o da legalidade, da moralidade, da impessoalidade.

7. Pedido julgado procedente para declarar inconstitucionais os
artigos 19, 20 e 21 da Lei n. 14.083 do Estado de Santa Catarina.
” (grifei)

Esta Suprema Corte, ao assim decidir, reiterou posição dominante
na jurisprudência deste Tribunal (ADI 363/SC, Rel. Min. SYDNEY
SANCHES –
ADI 417/ES, Rel. Min. MAURÍCIO CORRÊA – ADI 552/RJ, Rel.
Min. SYDNEY SANCHES –
ADI 690/GO, Rel. Min. SYDNEY SANCHES – ADI
2.379-MC/MG
, Rel. Min. ELLEN GRACIE, v.g.), dando fiel interpretação ao
que dispõe
e exige o § 3º do art. 236 da Constituição da República.

Registre-se, por oportuno, que eminentes Juízes desta Suprema
Corte,
apreciando controvérsias referentes a diversas situações – tais como
nomeações de titulares de serventias públicas efetivadas sem prévia
aprovação
em concurso público (MS 28.081/DF, Rel. Min. CEZAR PELUSO –
MS 29.780/DF, Rel. Min. JOAQUIM BARBOSA, v.g.), inclusive quando
efetuadas
em caráter interino (MS 29.297/DF, Rel. Min. AYRES BRITTO –
MS 29.796/DF, Rel. Min. AYRES BRITTO, v.g.), ou em substituição (MS
27.861/DF
, Rel. Min. CELSO DE MELLOMS 28.564/DF, Rel. Min. AYRES
BRITTO –
MS 30.888/DF, Rel. Min. AYRES BRITTO, v.g.) ou, ainda, em
hipóteses
de permuta ou remoção (MS 28.264/DF, Rel. Min. JOAQUIM
BARBOSA –
MS 29.414/DF, Rel. Min. JOAQUIM BARBOSA – MS 29.423/DF,
Rel. Min. JOAQUIM BARBOSA,
v.g.) –, entenderam necessária prévia
aprovação em concurso público de provas e títulos para ingresso na
atividade notarial
e registral.

Em suma: os precedentes que venho de mencionar refletem a
jurisprudência constitucional do Supremo Tribunal Federal, que,
apoiando-se
no § 3º
do art. 236 da Constituição, tem proclamado, sem maiores
disceptações
, que o ingresso na atividade notarial e/ou registral depende,
necessariamente, para legitimar-se, de prévia aprovação em concurso
público de provas
e títulos, sob pena de, em tal não ocorrendo, verificar-se a
nulidade
da outorga da delegação notarial e/ou registral.