Origem: 00085732820118190037 - TRIBUNAL DE JUSTIÇA ESTADUAL Procedência: RIO DE JANEIRO DECISÃO: Vistos. Juliana Teixeira de Araújo interpõe agravo contra decisão que não admitiu recurso extraordinário assentado em contrariedade ao art. 5º, inciso LV, da Constituição Federal. Insurge-se, no apelo extremo, contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, assim ementado: “ 1. APELAÇÃO CRIMINAL DEFENSIVA. IMPUTAÇÃO E CONDENAÇAO POR LESÃO CORPORAL PERPETRADA CONTRA CÔNJUGE. (VIOLÊNCIA DOMÉSTICA). PRELIMINAR DE NULIDADE POR INDEFERIMENTO DE DILIGÊNCIA DEFENSIVA. PEDIDO QUE BUSCAVA A EXPEDIÇÃO DE OFÍCIO PARA O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (ÓRGÃO EMPREGADOR DA VÍTIMA), OBJETIVANDO INFORMAÇÕES SOBRE O REITERADO AFASTAMENTO MÉDICO QUE A MESMA EXIBIA AO LONGO DE SUA VIDA FUNCIONAL E QUE TERIA CULMINADO COM SUA APOSENTADORIA POR INVALIDEZ. PROPÓSITO DE FAZER PROVA SOBRE IMPORTANTE DADO ACESSÓRIO DO EVENTO TÍPICO, A MELHOR SUBSIDIAR O THEMA DECIDENDUM, CONSIDERANDO A CIRCUNSTÂNCIA DE (SUPOSTAMENTE) OSTENTAR A VÍTIMA GRAVES TRANSTORNOS PSIQUIÁTRICOS, OS QUAS INCLUSIVE TERIAM INDIRETAMENTE ANIMADO A PRÁTICA NARRADA PELADENÚNCIA. INDEFERIMENTO JUDICIAL AO ARREPIO DO ART. 402 DO CPP. CERCEAMENTO DETECTADO, GERANDO PREJUÍZO CONCRETO À DEFESA DO APELANTE. NULIDADE QUE, TODAVIA, NÃO SE PROCLAMA, CONSIDERANDO A INCIDÊNCIA DA REGRA TELEOLÓGICA DO PAR. 2º DO ART. 249 DO CPC (C/C ART. 3º DO CPP), O QUAL DISPÕE: ‘QUANDO PUDER DECIDIR DO MÉRITO A FAVOR DA PARTE A QUEM APROVEITE A DECLARAÇÃO DA NULIDADE, O JUIZ NÃO A PRONUNCIARÁ NEM MANDARÁ REPETIR O ATO, OU SUPRIR-LHE A FALTA'. REJEIÇÃO DA PRELIMINAR. MÉRITO QUE SE RESOLVE EM FAVOR DO APELANTE. PROTAGONISTAS DO EPISÓDIO NARRADO ENVOLVIDOS EM RELAÇÃO DE CASAMENTO DE FATO, HÁ MAIS DE 18 ANOS E COM PROLE, RETRATANDO LAMENTÁVEL DRAMA FAMILIAR, CARACTERIZADO POR DESAFENÇAS. VÍTIMA QUE HÁ ANOS OSTENTA, SEGUNDO CONSTA, TRANSTORNOS PSIQUIÁTRICOS, DIAGNOSTICADOS COMO ‘SÍNDROME ANSIOSA, COM SINTOMAS DEPRESSIVOS, DE FORMA REATIVA', NUM ‘ESTADO DE ANSIEDADE DE MODERADO A GRAVE', SUFICIENTES PARA ENSEJAR SUA APOSENTADORIA POR INVALIDEZ. FATO NARRADO PELA DENÚNCIA, PRATICADO SEM A PRESENÇA DE TESTEMUNHAS, EM AMBIENTE DE INTIMIDADE DOMICILIAR. PALAVRA DA VÍTIMA QUE, EMBORA EXTREMAMENTE RELEVANTE EM LINHA DE PRINCÍPIO, HÁ DE SER AVALIADA COM EXTREMA CAUTELA, DIANTE DE TAIS CONDICIONANTES FACTUAIS CONCRETAS. RELATO DE UM DOS PSIQUIÁTRAS QUE TRATOU DA VÍTIMA, ENALTECENDO O FATO DE SER O APELANTE (SUPOSTAMENTE) UMA PESSOA CARINHOSA, ATENCIOSA E GENTIL PARA COM A SUA EX-COMPANHEIRA, SEMPRE PREOCUPADO COM SUA SAÚDE MENTAL. DEPOIMENTO APARENTEMENTE EQUIDISTANTE, QUE TENDE A MERECER CRÉDITO E DESTAQUE. RELEVÂNCIA PARALELA DA AVALIAÇÃO DOS SUPOSTOS ATOS PREPARATÓRIOS PARA A EXECUÇÃO DO EVENTO IMPUTADO, NO ÂMBITO DO QUAL, SEGUNDO A VÍTIMA, O APELANTE TERIA LIBERADO SEUS EMPREGADOS ANTES DA HORA, COM O PROPÓSITO DE BEM VIABILIZAR A SUA AÇÃO VIOLENTA. AUSÊNCIA DE INQUIRIÇÃO DE TAIS EMPREGADOS, GERANDO PERPLEXIDADE NO CONTEXTO DAS PROVAS E CONSPIRANDO PARA O ENFRAQUECIMENTO RADICAL DA PROPOSIÇÃO RESTRITIVA. VERSÃO TRAZIDA PELO RÉU, DANDO CONTA DE TER A VÍTIMA, APÓS DISCUSSÃO, ENTRADO EM CRISE PSIQUIÁTRICA POR OCASIÃO DO EVENTO, COLOCANDO-SE NA SUA FRENTE PARA OBSTRUIR-LHE A PASSAGEM, EVITANDO QUE O MESMO DEIXASSE O LOCAL, SEGUINDO DAÍ AS SUPOSTAS INVOLUNTÁRIAS LESÕES, NA SUA TENTATIVA DE RETIRAR A VÍTIMA DO SEU CAMINHO. VERSÃO QUE IGUALMENTE SE MOSTROU INSUSCETÍVEL DE COMPROVAÇÃO INTEGRAL, EMBORA COM ALGUMA VEROSSIMILHANÇA, CONSIDERANDO O DEPOIMENTO DO SEU ENTÃO PSIQUIÁTRA, DANDO CONTA DE QUE ‘A VÍTIMA JÁ RELATOU QUE QUEBROU BENS, PRATO E COPOS DENTRO DE CASA' E QUE TAMBÉM ‘RELATOU ATAQUES DE FÚRIAS POR CERCA DE DUAS VEZES'. CONJUNTO PROBATÓRIO QUE NÃO PERMITE SABER, COM RAZOÁVEL DOSE DE SEGURANÇA, O QUE EXATAMENTE TERIA OCORRIDO NO DIA DO LAMENTÁVEL EVENTO E QUE, NESSES TERMOS, EXPÕE SÉRIAS DÚVIDAS RELATIVAMENTE À COMPROVAÇÃO DE TODOS OS ELEMENTOS DO TIPO IMPUTADO, SUFICIENTES PARA ATRAIR O POSTULADO IN DUBIO PRO REO. RECURSO DEFENSIVO A QUE SE DÁ PROVIMENTO PARA ABSOLVER O APELANTE. 2. O Direito Processual Penal adota, no trato atinente às provas do devido processo legal, o Sistema do Livre Convencimento Racional Motivado (CPP, art. 155), através do qual a atividade das partes assume papel persuasivo. 3. Ao Ministério Público compete o ônus da prova sobre os elementos constitutivos do crime imputado. À Defesa o ônus sobre dados modificativos, extintivos e impeditivos a estes opostos. Inteligência do art. 156 do CPP, em interpretação conforme o art. 5º, inciso LVII, da Constituição Federal. 4. Em dadas circunstâncias excepcionais, sobretudo quando postada sobre o que geralmente ocorre segundo a experiência do cotidiano (CPC, art. 335; CPP, art. 3º), a prova indiciária pode ser validamente considerada para a legítima emissão de um juízo de censura, desde que harmônica, verossímil e conforme os demais elementos de informação. 5. Em linha de princípio, nos crimes praticados em ambiente doméstico, a palavra da mulher-ofendida, desde que coerente, verossímil e estruturada, tende a assumir caráter probatório destacado, ‘porquanto tais delitos são praticados, em regra, na esfera da convivência íntima e em situação de vulnerabilidade, sem que sejam presenciados por outras pessoas'. 6. Havendo dissonância dos elementos produzidos acerca de pontos essenciais da instrução, sobre os quais se assenta a versão restritiva inaugural, resta comprometida a plausibilidade da imputação acusatória e enseja, pela repercussão de dúvida irremovível no espírito do Julgador, a aplicação do princípio in dubio pro reo. 7. Apelação a que se dá provimento.” (fls. 678-682 e-STJ) Os embargos de declaração opostos foram rejeitados. Em suas alegações, aduz a recorrente que “[c]om base no que dispõe o §1º do artigo 370 do Código de Processo Penal , que determina que o assistente do Ministério Público deverá ser intimado para todos os atos processuais através de publicação no Diário Oficial, foi formulado requerimento junto a Egrégia Terceira Câmara Criminal pugnando pela nulidade do julgamento realizado no dia 21 de outubro do corrente , eis que os infra-assinados, representantes legais da ora Recorrente, não foram devidamente intimados para a sessão.” (fl. 778 e- STJ) Dessa forma, requer a anulação do julgamento realizado no tribunal de origem. Examinados os autos, decido. O Tribunal a quo, ao decidir as questões ora suscitadas, ateve-se ao exame de legislação eminentemente infraconstitucional. Portanto, a violação aos preceitos constitucionais apontados, se ocorresse, seria indireta ou reflexa, o que não enseja recurso extraordinário. Anota-se: “DIREITO PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. REVELIA. DEBATE DE ÂMBITO INFRACONSTITUCIONAL. ALEGAÇÃO DE OFENSA AO ART. 5º, LIV E LV, DA LEI MAIOR. EVENTUAL VIOLAÇÃO REFLEXA DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA NÃO VIABILIZA O MANEJO DE RECURSO EXTRAORDINÁRIO. ACÓRDÃO RECORRIDO DISPONIBILIZADO EM 15.7.2011. A análise da ocorrência de eventual afronta aos preceitos constitucionais invocados no apelo extremo demandaria a análise da legislação infraconstitucional aplicável à espécie e do reexame da moldura fática constante no acórdão regional, o que refoge à competência jurisdicional extraordinária, prevista no art. 102 da Constituição Federal. Agravo regimental conhecido e não provido.” (ARE nº 772230-AgRg/SP, Primeira Turma, Relatora a Ministra Rosa Weber , DJe de 8/4/14) Ressalte-se que a jurisprudência desta Suprema Corte é assente no sentido de que a afronta aos princípios da legalidade, do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório, dos limites da coisa julgada e da prestação jurisdicional, quando depende, para ser reconhecida como tal, da análise de normas infraconstitucionais, não configura ofensa direta e frontal à Constituição da República. Nesse sentido, confira-se: AI nº 657.780/BA-AgR, Primeira Turma, Relator o Ministro Menezes Direito , DJ de 17/8/07; AI nº 641.845/ES-AgR, Primeira Turma, Relator o Ministro Ricardo Lewandowski , DJ de 31/8/07; AI nº 505.224/SP-AgR, Primeira Turma, Relator o Ministro Ayres Britto , DJ de 18/5/07 e AI nº 563.028/GO-AgR, Segunda Turma, Relator o Ministro Gilmar Mendes , DJ de 11/5/07, entre outros. Por fim, registre-se que, para se chegar a entendimento diverso, em relação à intimação pessoal do recorrente, necessário seria o reexame aprofundando de fatos e provas, intimamente ligados ao mérito da ação penal, o que é vedado nesta via extraordinária, consoante o enunciado da Súmula nº 279/STF. Nesse compasso, colho julgados: “RECURSO. Extraordinário. Inadmissibilidade. Seguimento negado. Ação penal. Homicídio doloso. Júri. Vício na citação, falta de ciência de documentos e de intimação para a sessão do tribunal do júri. Alegação de nulidades não acolhida diante da apreciação dos fatos à luz de normas do Código de Processo Penal. Arguição de ofensa ao art. 5º, incs. XXXV, XXXVIII, LIV e LV, da CF. Inconsistência. Questões jurídico-normativas que apresentam ângulos ou aspectos constitucionais. Irrelevância. Inexistência de ofensa direta. Agravo improvido. 1. Somente se caracteriza ofensa à Constituição da República, quando a decisão recorrida atribuir a texto de lei significado normativo que guarde possibilidade teórica de afronta a norma constitucional. 2. É natural que, propondo-se a Constituição como fundamento jurídico último, formal e material, do ordenamento, toda questão jurídico- normativa apresente ângulos ou aspectos de algum modo constitucionais, em coerência com os predicados da unidade e da lógica que permeiam toda a ordem jurídica. 3. Este fenômeno não autoriza que sempre se dê prevalência à dimensão constitucional da ‘quaestio iuris', sob pretexto de a aplicação da norma ordinária encobrir ofensa à Constituição, porque esse corte epistemológico de natureza absoluta equivaleria à adoção de um atalho que, de um lado, degradaria o valor referencial da Carta, barateando-lhe a eficácia, e, de outro, aniquilaria todo o alcance teórico das normas infraconstitucionais. 4. Tal preponderância só quadra à hipótese de o recurso alegar e demonstrar que o significado normativo atribuído pela decisão ao texto da lei subalterna, no ato de aplicá-la ao caso, guarde possibilidade teórica de afronta a princípio ou regra constitucional objeto de discussão na causa. E, ainda assim, sem descurar-se da falácia de conhecido estratagema retórico que, no recurso, invoca, desnecessariamente, norma constitucional para justificar pretensão de releitura da norma infraconstitucional aplicada, quando, na instância ordinária, não se discutiu ou, o que é mais, nem se delineie eventual incompatibilidade entre ambas” (RE nº 517.961/RN–AgR, Segunda Turma, Relator o Ministro Cezar Peluso , Dje de 27/2/09); “PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE INSTRUMENTO. MATÉRIA INFRACONSTITUCIONAL: OFENSA INDIRETA À CONSTITUIÇÃO. PRECEDENTES. AGRAVO AO QUAL SE NEGA PROVIMENTO. 1. Apesar dos argumentos do Agravante, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal firmou-se no sentido de que as alegações de afronta aos princípios do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório, entre outros, configuram ofensa reflexa à Constituição da República. 2. Agravo Regimental ao qual se nega provimento” (AI nº 649.191/ DF-AgR, Primeira Turma, Relatora a Ministra Cármen Lúcia , DJ de 1º/6/07). “Agravo regimental no recurso extraordinário com agravo. Matéria criminal. Ofensa reflexa à Constituição. Precedentes. Pretendida desclassificação da conduta delituosa. Reexame de fatos e provas, inviável na via extraordinária, a teor da Súmula nº 279. Agravo não provido. 1. A jurisprudência da Suprema Corte é assente no sentido de que a afronta aos princípios da legalidade, do devido processo legal, da ampla defesa, do contraditório, dos limites da coisa julgada ou da prestação jurisdicional, quando depende, para ser reconhecida como tal, da análise de normas infraconstitucionais, não configura ofensa direta e frontal à Constituição da República. 2. Pressupõe o reexame de fatos e provas, não admitido na via extraordinária, a teor da Súmula nº 279/STF, avançar na análise da pretendida desclassificação do crime de peculato para o de apropriação indébita. 3. Agravo regimental a que se nega provimento.” (ARE nº 827.045/DF-AgR, Segunda Turma, de minha relatoria , DJe de 13/4/16) Ante o exposto, nos termos do artigo 21, § 1º, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, nego seguimento ao recurso. Publique-se. Brasília, 3 de abril de 2017. Ministro DIAS TOFFOLI Relator Documento assinado digitalmente